A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 20/10/2021
Em sua obra “Por outra globalização”, Milton Santos, geógrafo, expõe incongruências nas implicações práticas da globalização. Em meio ao caráter desigual de sua 4ª fase, o autor enfatiza a necessidade de criar um novo fenômeno que cesse a violação da autonomia econômico-social nacional. Hodiernamente, no entanto, tal preceito ainda é violado quando se observa a crise da mobilidade urbana no contexto brasileiro, um empecilho ao fortalecimento do IDH federal. É mister, por isso, relacionar sua ocorrência à negligência estatal e à inequipolência regional.
Convém ressaltar, destarte, que a contribuição dos automóveis ao agravamento do aquecimento global é omitida da conjectura popular pela ausência das autoridades na resolução do problema. Prova disso é a pífia distribuição de anúncios no meio virtual que compreendam o caráter destrutivo apresentado pelos combustíveis fósseis à conservação ambiental. Essa conjuntura, segundo a filosofia do pensador Thomas Hobbes, configura uma quebra do “Contrato Social”, pois, ao tentar abolir o estado natural humano - caracterizado pela anomia generalizada -, a máquina pública acaba perpetuando-o por não solidificar artifícios conscientizadores acerca dessa chaga social. Assim, mesmo diante da modernização multiprofissional acarretada pela ascensão do capitalismo informacional, a população ainda carece de políticas que incentivem o uso mínimo desses veículos.
Verifica-se, outrossim, a influência de matrizes históricas na conservação de estruturas arcaicas para o deslocamento. Em vista da concentração de investimentos do governo na porção sul do país - motivada pela alta do café e pela realocação da família Bragança para o Rio de Janeiro -, a infraestrutura em regiões subdesenvolvidas ao norte passou por um lento processo de atrofiamento. Sob essa ótica, retrocessos inerentes a tal inoperância adquirem expressividade no número de estradas e pavios sem cobertura adequada, o que, lamentavelmente, dificulta o trajeto automobilístico e reverbera doenças de fácil prevenção nas referidas localidades. Logo, uma gama de indivíduos interioranos é inclusa em constante determinismo geográfico, no qual a carência de recursos tão essenciais à mobilidade segura afeta no desempenho de relações sociais cotidianas.
O Estado deve, portanto, combater a crise da mobilidade urbana. Dessa forma, urge que o Ministério da Educação - órgão distribuidor de fundos ao cenário educacional brasileiro - crie, por meio de verbas governamentais, palestras escolares acerca da temática, a fim de relacioná-la à desigualdade regional. Ademais, cabe ao IBGE a renovação de dados que tangem aos efeitos dos combustíveis fósseis no meio ambiente, almejando evidenciar suas proporções. Somente assim as aspirações santosianas serão concretizadas.