A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 26/10/2021

Segundo o Método Cartesiano, teoria proposta por René Descartes no século XVI, para solucionar um problema é preciso analisá-lo sob perspectivas distintas. Hodiernamente, no que concerne à situação deplorável da mobilidade urbana no Brasil, constata-se a extrema relevância da proposta analítica supramencionada. Desse modo, é substancial discutir não somente as consequências de um tráfego cotidiano deficiente, mas também os fatores que impedem subverter essa realidade nefasta.

Precipiamente, convém salientar que, segundo uma pesquisa Ibope, cerca de 25% dos brasileiros utilizam o transporte coletivo diariamente. Sob esse viés, percebe-se que uma porção significativa de cidadãos são expostos a um tráfego estressante, marcado pelo mau estado de conservação dos ônibus e atrasos frequentes -seja pelo trânsito ou pela desorganização evidente do setor-. Consequentemente, uma “solução” equivocada é o uso diário do carro particular, o que piora ainda mais os engarrafamentos devido ao maior fluxo de veículos.

Outrossim, é indubitável que o descaso político-administrativo é um fator-chave na potencialização do infortúnio. Acerca dessa premissa, nota-se a refutação do princípio estabelecido por Jean Bodin, segundo o qual a Política deve garantir o bem-estar dos cidadãos. A título de exemplo, é mister citar o quadro “Tá agarrado”, uma série de reportagens produzida pela Rede Globo Minas que, em setembro de 2021, exibiu a calamidade do transporte coletivo em Belo Horizonte, além dos casos de corrupção que perpetuam uma situação vergonhosa há décadas nesse meio de tráfego fortemente utilizado. Diante disso, é intolerável que o direito de ir e vir -intrínseco aos cidadãos- continue sendo violado no contexto brasileiro.

Ante os fatos, é imperioso que o Governo Federal, em consonância às Prefeituras, engaje-se no combate à situação vergonhosa da mobilidade urbana no Brasil. Para tanto, devem ser firmados contratos com empresas de transporte do setor privado para a disponibilização de ônibus em bom estado de conservação e que atendam à realidade de cada distrito-evitando a superlotação e o não cumprimento de horários nas rotas-, estimulando ainda a adoção de locomoções realmente alternativas e hábeis tais como a bicicleta, por meio da construção de ciclovias e ciclofaixas nos locais de maior circulação diária de trabalhadores e da população em geral. Tais medidas visam a aniquilação de uma mobilidade caótica e marcada pela lentidão para, assim, ratificar o dever da Política, conforme proposto pelo pensador francês Jean Bodin.