A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 04/11/2021
O governo fictício de “Utopia”, obra do escritor inglês Thomas More, assegura a liberdade de circulação, ou seja, o direito humano de se deslocar, residir ou trabalhar em qualquer área sob o domínio do Estado. Em contraste com essa idealização, vêm ocorrendo uma crescente crise na mobilidade urbana no Brasil, impedindo o pleno exércicio do direito intrínseco à população de ir e vir. Diante disso, torna-se necessário entender o que motiva essa crise que assola o território tupiniquim.
Precipuamente, é necessário destacar que a industrialização brasileira foi tardia em comparação com potências como Inglaterra e Estados Unidos, intensificando-se apenas durante a Era Vargas, na década de 1930. Assim sendo, o aumento populacional decorrente desse movimento, ocorrido principalmente nas metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro, aconteceu de maneira acelerada e não planejada, com um exôdo rural massivo de camponeses buscando melhores condições de vida nos polos industriais urbanos. Por conseguinte dessa falta de organização na urbanização do país, o sistema público de transporte não foi capaz de lidar com o grande número de pessoas se locomovendo pelas cidades diariamente, sendo ineficiente para atender as demandas da população de baixa renda que mais necessita desse meio para trabalhar.
Ademais, houve um aumento na procura por automóveis particulares em todo país. A razão primordial para a busca por esses veículos é a lotação nos ônibus, que, segundo pesquisa do IBOPE de 2019, já chegava a 59%. No entanto, a utilização demasiada de carros, tanto para serviços prestados como Uber, quanto para uso pessoal, contribuem para o crescimento do trânsito nas ruas e avenidas de maior trafego das cidades, que por sua vital importância socioeconômica não deveriam sofrer de tais empecilhos.
Depreende-se, portanto, a necessidade de combater esse problema em suas diferentes vertentes. Torna-se crucial o incentivo do Estado, por meio de campanhas publicitárias, para o uso de transportes de menor custo e maior sustentabilidade, como a bicicleta, a fim de diminuir a procura desenfreada por automóveis particulares e a lotação do transporte público. Paralelamente, a aplicação do pedágio urbano para circulação de automóveis particulares em dias úteis, aliado ao acréscimo no número de ônibus espalhados na cidade, podem vir a ser de grande ajuda para a população. Se bem aplicado essas políticas, o Brasil pode caminhar mais um passo para perto do mundo imaginado por Thomas More, onde a liberdade de circulação não é mais um sonho, e sim uma realidade.