A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 17/11/2021

Manoel de Barros, grande poeta pós modernista, desenvolveu em suas obras uma “teologia do traste”, cuja principal característica reside em dar valor às situações frequentemente esquecidas ou ignoradas. Segundo a lógica barrosiana, faz-se preciso, destarte, valorizar também a problemática da mobilidade urbana no Brasil, pelo fato desta enfrentar uma crise gradativa. Nesse sentido, com o intuito de mitigar os males relativos a essa temática, é importante analisar o crescente acúmulo de automóveis, assim como a carência de investimentos em meios de transporte viáveis para o contingente populacional.

Em primeiro lugar, destaca-se a ordenação da fabricação massiva como uma das causas motivadoras dessa contrariedade. Sob esse viés, o sistema industrial fordista surgiu, no século XX, com o objetivo de sistematizar as relações consumistas e de produção automobilística seriada em uma sociedade voltada para o doutrinamento capitalista. Dessa maneira, o barateamento dos produtos gerado pela constância produtiva é responsável pela abundância de meios de locomoção no tráfego brasileiro, fato que dificulta a movimentação da comunidade em suas vias de acesso. Logo, é inadmissível que esse cenário continue a perdurar.

Ademais, é imperioso notar que a indiligência do Estado contribui para a ausência de formas de deslocamento acessíveis em prol do corpo social. Esse contexto da inoperância das esferas de poder exemplifica a teoria das Instituições Zumbis, do sociólogo Zygmunt Bauman, que as descreve como presentes no meio social, entretanto, sem cumprirem a sua função. Assim, devido à baixa operância das autoridades, os indivíduos incorporados às zonas periféricas encontram uma enorme dificuldade para se deslocarem aos grandes centros urbanos, responsáveis pela gestão e oferecimento de oportunidades, uma vez que os investimentos em transportes públicos são precários. Nessa perspectiva, para a completa refutação da teoria do estudioso polonês e mudança dessa realidade, é imprescindível uma intervenção estatal.

Portanto, é possível concluir que a crescente crise na mobilidade urbana brasileira deve ser tratada de forma consistente. Dessa forma, o Ministério da Infraestrutura, órgão responsável por atuar na política nacional de transportes, por meio do seu poder de influência, mediante verbas governamentais, deve instituir projetos que visem a organização dos tráfegos, além de garantir o acesso da população marginalizada aos veículos comunitários, a fim de sanar os problemas apresentados. Feito isso, espera-se que o pensamento levantado por Manoel de Barros não se delimite apenas ao plano literário.