A democratização do acesso à cultura no Brasil
Enviada em 02/09/2019
Avaliar criticamente a questão relativa ao baixo acesso da população brasileira aos bens culturais traduz responsabilidade democrática, e isso é atribuição de esferas públicas, sociais e econômicas. Nesse sentido, a elitização do patrimônio cultural brasileiro, aliada à falhas governamentais na aproximação da população à esse, intensifica o cenário marginalizador do país e configura um impasse na democratização do acesso à cultura. Desse modo, é fundamental avaliar o atual panorama para desconstruir essa realidade.
A princípio, é necessário avaliar que o acesso à cultura brasileira é elitista e hierarquizado. Acerca desse cenário, os exorbitantes preços cobrados para shows, cinemas e espetáculos teatrais em todo território nacional, bem como para a compra de um livro, acarretam uma segregação sociocultural, na medida em que ocorre uma divisão entre a população que tem e a que não tem alcance a um bem que deveria, na teoria, ser de todos. Nesse sentido, em consonância com o pensamento do sociólogo Karl Marx, a cultura brasileira é transformada em uma mercadoria, ofertada pelos que objetivam o lucro em detrimento da valorização da identidade nacional.
Outrossim, é importante destacar a questão constitucional e sua aplicação como causas do problema. Nesse viés, embora a Carta Magna de 1988 imponha como dever do Estado garantir à população acesso às manifestações culturais, ocorre, na prática, um descaso quanto a destinação de investimentos para viabilização dessas. Prova disso, são os dados de uma pesquisa promovida pelo IBGE, que mostram, até 2014, apenas 15,1% dos municípios sendo portadores de um centro de leitura, enquanto só 4,7% têm uma galeria de arte. Essa realidade, demonstra a desvalorização do multiculturalismo brasileiro e a falta de interesse em formar uma sociedade conhecedora da importância da cultura para sua formação cidadã.
Entende-se, portanto, que o lapso na democratização cultural é reflexo da falta de acessibilidade à uma parcela populacional, vinculada às lacunas governamentais no cumprimento de suas obrigações. Diante disso, é necessária uma ação conjunta, na qual o terceiro setor, com o apoio do voluntariado jovem, deve promover ações sociais em comunidades carentes, como grupos de leitura e cinemas comunitários, objetivando o enfrentamento da hierarquização sociocultural. Nessa mesma linha de ação, o Ministério da Cidadania deve, em parceria com o Executivo Municipal, direcionar investimentos para a produção cultural nas cidades do Brasil, para a realização de eventos artísticos abertos ao público, a exemplo da “Virada Cultural”, que acontece no município de São Paulo, no intuito de ampliar o contato com as manifestações artísticas, e, assim, formar um país de valores igualitários.