A democratização do acesso à cultura no Brasil

Enviada em 31/10/2019

Em “A Sociedade dos Poetas Mortos”, filme estadunidense, Robin Willians vive o papel de John Keating, um revolucionário educador que leciona na conservadora a Academia Welton. Ao longo da narrativa, é mostrado como ele desafia os padrões conteudistas da instituição e estimula os seus estudantes a se apaixonarem pela poesia. Analogamente, por mais que a obra traga uma perspectiva sobre o poder de transformação da arte, ela é extremante distante da realidade da conjuntura brasileira, na qual o direito ao acesso à cultura não é de fato garantido, em razão dessa ter se tornado um privilégio para as elites e, consequentemente, atuar como um instrumento de alienação das massas.

Primordialmente, convém investigar como a herança histórica contribui na manutenção desse problema. Consoante a isso, como preconizado pela socióloga Hannah Arendt, quando uma ação negativa acontece de maneira recorrente, a sociedade tende a normaliza-la. Sob tal ótica, durante a Idade Moderna existia uma preocupação dos nobres em se distanciarem das demais camadas sociais, encontrando uma solução na criação de obras artísticas exclusivas para a nobreza. Nesse sentido, percebe-se como isso originou a dominação das classes mais altas sobre certos aparatos artísticos, impossibilitando com que eles sejam acessados pelo restante da população.

Por conseguinte, é relevante averiguar os impactos desse impasse para a comunidade. Conforme apontado pelos pensadores da Escola de Frankfurt, após o advento da Revolução Industrial, as produções culturais passaram a ser tratadas como produtos de consumo. Nessa perspectiva, isso faz com que as obras eruditas, caracterizadas pelos seus traços complexos e refinados, passem por um processo de elitização e, como resultado, sejam acessíveis somente para uma minoria da população. De tal modo, a parcela dos brasileiros com menor poder aquisitivo só é capaz de acessar a cultura de massa, a qual, por sua vez, sofre uma significativa perda da qualidade e capacidade crítica da arte, resultando na criação de uma menoridade intelectual composta por sujeitos alienados.

Em virtude do que foi mencionado, evidencia-se a necessidade de intervenções imediatas para reverter o cenário atual. Sendo assim, para combater a elitização das produções culturais e possibilitar o acesso universal dessas, cabe aos ministros da cidadania e da economia, criarem, por meio do subsídio de empresas particulares em todo o território nacional, um projeto que disponibilize eventos artísticos com entrada franca, como, por exemplo, sessões de cinema e espetáculos teatrais. Somente assim, será possível assegurar a democratização da cultura e permitir que, assim como retratado em “A Sociedade dos Poetas Mortos” através dos alunos do professor Keating, ela possa transformar a vida dos cidadãos brasileiros.