A democratização do acesso à cultura no Brasil

Enviada em 19/10/2019

Na obra ‘‘Dora, Doralina’’, da escritora Rachel de Queiroz, Dora, a protagonista, atua em peças de teatro por todo o país, apresentando-se para a elite econômica e intelectual residente nos municípios.Nesse contexto, é fato que o acesso ao entretenimento manteve-se restrito à camada dominante da sociedade desde o período colonial brasileiro. Assim, com a ascensão do processo democrático houve uma ‘‘gourmetização’’ da cultura, com o intuito de manter sua exclusividade sob a crescente oportunidade de acesso das populações mais carentes. Desse modo, a estratificação social distancia os processos culturais das comunidades, contribuindo para a ausência de engajamento e interesse por parte da população.

Em primeiro momento, é perceptível uma falsa democracia cultural no Brasil contemporâneo, pois o direito de frequentar cinemas, livrarias e teatros não basta para que todas as camadas, definitivamente, tenham possibilidade de utilização desses locais. Nesse viés, o Ministério da Cultura afirmara que o preço médio do livro de leitura é muito elevado quando se compara com a renda dos brasileiros das classes C,D e E. Dessa maneira, os cidadãos de baixa renda são excluídos do núcleo sociocultural, por não possuírem poderio econômico o suficiente para fazerem uso das localidades e produtos ofertados.

Ademais, a segregação social e o distanciamento da vida cultural contribui para o crescente desinteresse dos cidadãos acerca das tradicionais opções de entretenimento e exaltação de formas alternativas. Essa situação, de acordo com o contratualista John Locke, configura-se como uma ‘‘violação do contrato social’’, já que o Estado não cumpre sua função em garantir o direito de igualdade a todos. A despeito disso, uma real consequência da democratização sociocultural é a valorização e apreciação da cultura, e não seu desmembramento em moralizada e marginalizada. Logo, há a propagação de preconceito contra as manifestações culturais disseminadas pelas classes menos providas financeiramente.

Faz-se necessário, portanto, uma coesão entre prefeituras e universidades para mitigar a problemática. Primeiramente, os prefeitos devem promover nos municípios oficinas lúdicas e exposições artísticas em parceria com os cursos superiores de arte locais, possibilitando inclusive experiências práticas para os acadêmicos universitários. Por conseguinte, haverá o englobamento dos núcleos sociais da cidade, assim, promovendo a inclusão e disseminação de todas as formas culturais, não somente as tradicionais. Dessa forma, oferece-se informatividade e acesso gratuito às formas de cultura antes elitizadas, um eficiente meio para se obter a real democracia cultural. Somente assim, espera-se que um dia todos tenham a oportunidade de ver Dora atuar.