A democratização do acesso à cultura no Brasil

Enviada em 20/10/2019

Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, ainda que cada sujeito possua sua individualidade, esta se entrelaça no contexto social dos diversos grupos e instituições das quais participa. Ao considerar esse olhar como ponto de partida para a discussão acerca da democratização do acesso à cultura no Brasil, observa-se a influência de diversos atores sociais nesse cenário. Torna-se pontual, nesse contexto, não apenas questionar como o viés capitalista contribui para a caracterização do problema, mas também analisar seus impactos no organismo social.

A partir dessa problematização, cabe compreender como certos grupos necessitam da movimentação para a produção cultura, repassando-os para a população em geral. Nesse sentido, confirma-se a ótica de Bourdieu, na medida em que há uma clara influenciação das peculiaridades por certos grupos e instituições ligados ao contexto mercadológico. Dessa maneira, é claro o segregacionismo do acesso cultural, sendo as classes A e B favorecidas em detrimento da marginalização das classes C, D e E pela falta de incentivo à essa prática. Vale salientar, assim, os altos custos necessários ao acesso cultural, a exemplo dos valores de livros, museus e do cinema, comparados ao salário das classes mais populares, provenientes não apenas da carga tributária nacional, mas também da ambição de grupos e empresas deste ramo, dificultando a democratização, de faro, do acesso à cultura. Percebe-se, então, a necessidade do maior envolvimento estatal nessa regulamentação, favorecendo a disseminação ampla deste bem pela sociedade.

Paralelamente à questão mercadológica, outro ponto relevante nesse cenário, é como o contexto pós-moderno dificulta o combate à problemática. Nessa perspectiva, atesta-se o viés de Zygmunt Bauman, pois, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, o pensador advoga que o indivíduo contemporâneo age de maneira irracional por ser vitimado pela cegueira moral. Isso significa que a sociedade não alerta seus indivíduos para reconhecerem a cultura como fortalecedora do intelecto e do sentimento do pertencimento nacional, sendo esta popularmente associada apenas ao lazer, por meio desse raciocínio, portanto, não é dado o devido valor a essa prática, marginalizada e deixada em segundo plano pelo povo brasileiro. Configura-se, assim, cega a sociedade, na analogia do sociólogo, em razão da falta de apoio popular à causa. Urge, por conseguinte, a necessidade de reestipulação dos valores sociais do povo para atraí-lo a favor da democratização cultural.

Entende-se, diante do exposto, a importância de medidas serem implantadas para conter o quadro atual. A princípio, é fundamental que o Ministério da Cultura, em apoio com a Receita Federal, fomente a popularização da cultura por meio do incentivo financeiro a órgãos de produção cultural, como a Ancine, e da isenção de impostos para a produção de livros, por exemplo, diminuindo os preços destes e favorecendo sua popularização. Ademais, cabe ao Ministério da Educação a criação de uma nova diretriz educacional que, por meio de atividades lúdicas, como dinâmicas e debates, mostrem o valor e a importância do acesso à cultura, conscientizando os alunos, integrantes da sociedade, a buscarem e estimularem essa prática. Com essas iniciativas, espera-se que o entrelaçar entre os agrupamentos sociais, proposto por Bourdieu, possa conduzir a relações mais humanizadas.