A democratização do acesso à cultura no Brasil

Enviada em 19/10/2019

Na década de 1930, o Modernismo brasileiro, com Mário de Andrade e outros intelectuais da época, reunia esforços na tentativa de valorizar e popularizar a cultura nacional, por meio da construção de uma identidade brasileira diversa, com contribuições de povos indígenas, europeus e africanos. No entanto, apesar do importante papel da cultura na construção dessa identidade nacional e também na formação de cidadãos críticos, ela ainda é alvo de negligência, por parte do governo, e de indiferença, por parte da sociedade, no Brasil.

Nesse contexto, o descaso da população por manifestações artísticas em museus, teatros e outros é causado, muitas vezes, pela falta de representatividade que a maioria dos brasileiros encontra nesses espaços culturais. Segundo Theodor Adorno, sociólogo alemão da Escola de Frankfurt, o poder crítico das obras de arte derivariam da sua oposição ao status quo, ou seja, à maneira como a sociedade se apresenta. Apesar disso, o caráter contestador desses produtos culturais acaba não sendo viável, pois é facilmente assimilável pela indústria cultural, isto é, pelo capitalismo. Analogamente, o funk no Brasil tinha uma letra de contestação à injustiça e à desigualdade social, representando as camadas mais baixas da sociedade, porém, hoje, encontra-se cooptado pela lógica capitalista e canta sobre o poder de consumo, o chamado funk ostentação.

Ademais, a popularização das diversas formas de cultura encontra percalços no país pela dificuldade de acesso a espaços culturais, em sua maioria restritos a grandes centros urbanos e pagos, que os cidadãos enfrentam. Para o filósofo francês Pierre Bourdieu, o capital cultural explica como a cultura em uma sociedade dividida em classes se transforma em um instrumento de dominação, a partir do qual a classe dominante impõe às classes dominadas sua própria cultura, dando-lhe um valor incontestável. Nesse sentido, a escola, que deveria ser um local onde o conhecimento é transmitido de forma democrática, acaba por perpetuar essa lógica, por meio de um ensino conteudista e essencialmente eurocêntrico.

Dessa forma, o Ministério da Educação deve incentivar o estudo da diversidade cultural brasileira nas escolas, o qual pode ser realizado por meio de atividades extracurriculares lúdicas, com vistas a criar uma relação de representatividade entre os alunos e a arte brasileira. Além disso, é importante que as Secretarias de Cultura dos estados acolham as manifestações artístico-culturais das esferas menos favorecidas da população, incentivando novos artistas periféricos a exporem seus trabalhos em espaços culturais por meio de políticas afirmativas, de modo a garantir o pleno exercício dos direitos culturais, conforme o artigo 215 da Constituição Cidadã de 1988.