A democratização do acesso à cultura no Brasil

Enviada em 08/12/2020

A produção “Ilha de Utopia”, do escritor Thomas Morus, descreve uma realidade em que os cidadãos vivem harmoniosamente e de modo a garantir a isonomia de direitos direcionados à todos. No Brasil hodierno, a prática deturpa a teoria, à medida que se observa o contexto do acesso à cultura pelas diferentes esferas sociais, o qual se mostra desigual e escasso tanto de acordo com o poder aquisitivo da sociedade, como quanto ao incentivo dado pelos poderes políticos vigentes. Logo, urge a indispensabilidade de ações de cunho social e governamental nesse espaço civilizatório.

Nesse sentido, é digna a menção de movimentos incitadores do saber oriundos dos fazeres artísticos, em conformidade com a historicidade da sociedade. A exemplo disso, a obra “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, surge diante de uma conjuntura social exigidora de reflexão acerca da liberdade do pensamento humano e da sua visão criativa. No entanto, apesar do surgimento de exposições, de teatros e das salas de cinema, por exigir a participação do telespectador, esse núcleo inovador passou também a explorá-lo, de modo a alimentar o capitalismo. Assim, conforme o termo criado pela Escola de Frankfurt, a alienação massificante revela a sobreposição mercadológica frente à valorização da cultura como fonte de aprendizado.

Outrossim, o sentimento nacionalista europeu do século XX coloca em vigor o período conhecido como “Belle Époque”, movimento exaltador da arte e da cultura nacionais. Desse modo, a qualidade de vida estava intrinsecamente ligada ao lazer e à valorização dos seus métodos de obtenção e, por esse motivo, as idas aos espetáculos que retratavam o povo europeu tornaram-se feitos comuns à rotina de seus membros. Ao contrário disso, a população tupiniquim vive uma realidade social distante dos “sonhos” europeus, já que o descaso estatal faz-se presente, corroborado diante do ineficaz, quando não inexistente, acesso à infraestrutura nas diferentes regiões do país: locais de potencial propagação da arte e da cultura, como  bibliotecas e praças públicas, encontram-se sucateadas e carentes de incentivo ao uso associado aos cuidados com o ambiente coletivo.

Diante desses impasses, medidas de reversão da situação antidemocrática fazem-se necessárias. Para isso, o Congresso Nacional deve direcionar capital que, por intermédio de uma alteração na Lei das Diretrizes Orçamentárias, amplie o setor de acesso às exposições de lazer - enfatizando a ida aos museus -, com vistas à formação cidadã respaldada pelo saber e ciente de seus direitos. Ademais, a união entre a Secretaria da Cultura e os shoppings centers, em especial os localizados nos pequenos municípios, devem promover passeios escolares para a efetivação do ensino pluralizado e, assim, garantir a aproximação com a ficção de Morus.