A democratização do acesso à cultura no Brasil
Enviada em 19/09/2021
Segundo o crítico literário Antônio Cândido, a linguagem artística tem um papel fundamental na formação do caráter humano, uma vez que ela estimula reflexões e amplia o conhecimento de mundo. A par desse raciocínio, é fato que, no Brasil, essa importância encontra-se ameaçada pela falta de democratização do acesso à cultura. Nesse sentido, a problemática supracitada ocorre devido à desigualdade regional e à elitização do entretenimento.
Em primeiro lugar, vale ressaltar que a disparidade local no país impossibilita a distribuição equitativa de produções culturais. A esse respeito, durante o governo de Juscelino Kubitscheck, o projeto desenvolvimentista implementado favoreceu a concentração industrial e financeira no Brasil. Nessa perspectiva, a herança histórica ainda perdura no território nacional, especialmente em relação ao entretenimento, visto que a benesse estatal privilegiou grandes centros econômicos em detrimento do avanço das regiões periféricas, o que impossibilitou o investimento artístico e, por conseguinte, a construção da educação e do lazer populacional. Sendo assim, constata-se a necessidade de modificar esse desequilíbrio.
Ademais, a democratização cultural torna-se inviável perante à elitização dessas práticas. Nesse contexto, conforme o filósofo Pierre de Bourdieu, determinadas classes sociais são inferiorizadas por conta da produção de gostos artificial, a qual acontece, sobretudo, no âmbito escolar, onde as práticas artísticas são classificadas como erudição e destinadas ao público de renda elevada. Sob esse viés, verifica-se a dificuldade em disponibilizar um acesso equânime ao entretenimento, tendo em vista que os cidadãos menos afortunados desconsideram a possibilidade de participar dessas formas de lazer, já que nem as enxergam como prioridade, nem se julgam dignos. Dessarte, fica evidente a premência de inserir, igualitariamente, a população na contemplação artística.
Portanto, medidas são necessárias para promover a democratização do acesso à cultura do Brasil. Com esse fito, urge que os Ministérios da Educação e da Cidadania, por meio de verbas governamentais, criem um programa de desenvolvimento regional, com ênfase nos espaços de lazer, a fim de priorizar os locais carentes de práticas artísticas. Isso ocorrerá mediante a construção de ambientes recreativos públicos e a distribuição, destinada às famílias de baixa renda, de uma bolsa entretenimento, a qual ofertará o direito à utilização de cinco ingressos culturais mensais, escolhidos pelo usuário. Dessa maneira, o papel essencial descrito por Antônio Cândido será atingido.