A democratização do acesso à cultura no Brasil

Enviada em 13/09/2021

No curta-metragem premiado “Alike”, dos diretores Lara e Méndez, é evidente o poder transformador da arte no cotidiano dos personagens, os quais trocam de cor ao entrarem em contato com os bens culturais: tornam-se coloridos em contraponto ao cinza monótono original. Não só na ficção, mas também no Brasil contemporâneo, essa transmutação proporcionada pela cultura é restrita à minoria da parcela social. Nesse sentido, nota-se a urgência da democratização do acesso à cultura, processo limitado pela desigualdade socioeconômica vigente no país.

Nessa conjuntura, é notória a importância de possibilitar o usufruto dos bens culturais a todos os cidadãos. Conforme o filósofo Nietszche: “A arte existe para que a realidade não nos destrua”. Nessa perspectiva, observa-se que os bens culturais permitem ao homem a construção de um sistema simbólico que o conduz a uma experiência ampliada da realidade. Dessa forma, o indivíduo pode ter uma melhor compreensão do meio em que vive e entendê-lo de forma crítica.  Ao consumir peças teatrais, por exemplo, é possível experimentar a função catártica da arte e desenvolver novas percepções da vivência cotidiana. Caso isso não ocorra, a alienação do meio em que vive é facilitada, bem como a “destruição pela realidade” apontada pelo pensador. Logo, é factual a necessidade de democratizar o acesso à cultura, em respeito à dignidade humana.

Contudo, a desigualdade socioeconômica age como entrave ao consumo de bens culturais no país. Segundo o coeficiente de Gini, o Brasil figura entre as dez nações mais desiguais do mundo.  Desse modo, é inviabilizado o acesso da maior parte da população à cultura. Isso é fortalecido pelo contexto de mercantilização dessa, visto que há hodiernamente o interesse de converter a produção cultural em lucro, consoante apontado por Adorno e Horkheimer. Nesse contexto, há a massificação dos bens culturais, enquanto o acesso aos quais segue limitado. Esse fenômeno pode ser exemplificado pelo recente aumento nos preços dos livros, culminando com o fechamento de importantes livrarias. Assim sendo, é tácito o impacto da desigualdade nesse processo de restrição do acesso à cultura.

Portanto, é fundamental alterar esse quadro de desigualdade de acesso aos bens culturais produzidos no país. Por isso, o Ministério da Economia, órgão responsável pela execução da política econômica, deve investir na construção de novos espaços públicos que possibilitem a realização de eventos culturais gratuitos a todos os cidadãos com renda igual a um salário mínimo. Por meio da participação dos profissionais da cultura e da arrecadação obtida pela bilheteria dos indivíduos pagantes, o sucesso da medida será garantido, ampliando o usufruto da cultura no país. Feito isso, os cidadãos poderão vivenciar a transmutação exposta em “Alike”.