A democratização do acesso à cultura no Brasil
Enviada em 14/09/2021
O jornalista Gilberto Dimenstein, em sua obra “O Cidadão de Papel”, argumenta que a legislação brasileira é muito boa na teoria, porém, torna-se ineficaz, visto que não se concretiza na prática. Esse raciocínio pode ser comprovado pelo fato de que, apesar da Constituição Federal garantir o acesso de todos a manifestações culturais, não há uma real democratização da cultura no país, pois apenas pequena parte da população usufrui de seus benefícios. Desse modo, vê-se que tal quadro é agravado por dois fatores: a mercantilização da esfera cultural e a elitização das artes.
A princípio, é importante destacar que, na sociedade contemporânea, a cultura é comercializada como mercadoria. Nesse sentido, segundo os filósofos Adorno e Horkheimer, a partir do século 20, com o advento da “Indústria Cultural”, a arte passou a estar subordinada à lógica capitalista de busca pelo lucro. Diante disso, os eventos culturais, muitas vezes, cobram valores altos e incompatíveis com a renda das famílias mais pobres, o que acarreta um processo de exclusão desses cidadãos que os impossibilita de ter um consumo artístico ativo.
Ademais, os preconceitos afastam indivíduos carentes e menos escolarizados do contado com vertentes culturais consideradas “próprios da elite”. Sob essa ótica, para a filósofa Marilena Chauí, a divisão entre cultura “erudita” e “popular” é restritiva e segregadora, tendo em vista que delimita aquilo que deve ser consumido por cada grupo social e coloca o fazer artístico das classes mais poderosas como superior. Por conseguinte, tal pensamento é um desafio à democratização da cultura, pois os mais humildes, ao tentarem se inserir em ambientes de arte consideradas de “alto nível”, como orquestras de música clássica, são frequentemente discriminados.
Portanto, faz-se necessário que a cultura seja de fato democratizada no Brasil. Assim, o Ministério da Cidadania deve tornar os eventos culturais mais acessíveis ao grande público, por meio da criação de locais, com entrada gratuita, voltados à exposição de arte e a apresentações de grupos teatrais, que sejam localizados em comunidades carentes. Isso com o objetivo de engajar as classes mais pobres em diferentes manifestações artísticas. Ademais, as escolas devem desconstruir a ideia segregadora de cultura erudita, por meio de debates, nas disciplinas da área de Ciências Humanas, que visem ampliar o conceito de cultura, com o fim de mitigar a elitização dessa e a ocorrência de atos preconceituosos no meio artístico. Dessa maneira, a cidadania sairá do papel e será posta em prática.