A democratização do acesso à cultura no Brasil
Enviada em 18/09/2021
Para o escritor Machado de Assis, o Brasil é dividido em dois países: o Brasil oficial e o Brasil real. De acordo com o romancista, o país real é aquele onde existem leis e estas são seguidas, já o real é aquele no qual as regras existentes são desrespeitadas e não vigoram. Infelizmente, o Brasil evidenciado na sociedade contemporânea é o real, onde as normas constitucionais são ignoradas e isso se reflete na não democratização do acesso à cultura no Brasil. Isso se deve, sobretudo, à grande concentração de centros culturais em bairros elitizados, o que gera uma insuficiência intelectual na população.
Em primeira análise, é possível observar que as cidades brasileiras foram formadas a partir de um viés segregacionista e comercial que separa bairros mais carentes dos bairros mais nobres. Diante disso, centros de cultura, como cinemas, museus, livrarias e teatros, ficam concentrados em áreas elitizadas, em virtude do alto poder aquisitivo desses cidadãos, que se mostram mais dispostos a pagar valores mais altos pelas artes, o que causa um afastamento cultural pelas camadas menos abastadas. Essa conjuntura configura-se como quebra do “Contrato Social”, segundo o filósofo iluminista John Locke, visto que o Estado está sendo incapaz de garantir direitos mínimos à população, como o direito à cultura.
Em segunda análise, é evidente que o conhecimento cultural é fundamental para o desenvolvimento intelectual dos indivíduos, uma vez que estimula o pensar crítico acerca do mundo. Contudo, com a concentração dos centros culturais em bairros de elite, a classe mais baixa do país fica excluída não só economicamente, mas também intelectualmente, pois, conforme o pensador Arthur Schopenhauer, os limites do campo de visão de uma pessoa determinam o seu conhecimento a respeito do mundo, ou seja, a falta de acesso à cultura gera um bloqueio do aprendizado passado pelas artes para essa minoria, fato que impede, por conseguinte, a plenitude da essência aristotélica. Sob essa óptica, infere-se que o amplo acesso à cultura é de suma importância para o desenvolvimento de um indivíduo.
Portanto, tendo em vista a necessidade de democratizar o acesso à cultura no Brasil, é mister que o Estado invista na construção de cinemas, teatros, bibliotecas, entre outros centros culturais em áreas mais carentes do país, mediante replanejamento orçamentário, que viabilize a destinação de mais verbas para a construção de meios culturais nos municípios, com o propósito de que mais brasileiros possam usufruir dessa importante ferramenta para o conhecimento. Ademais, é imperioso que as escolas, por meio de aulas sobre “Cultura e Cidadania”, propague conhecimento acerca de diferentes tipos de cultura aos jovens, para que se desenvolvam intelectualmente. Desse modo, o Brasil evidenciado, segundo definição dada por Machado de Assis, será o oficial.