A democratização do acesso à cultura no Brasil
Enviada em 21/09/2021
“Sob o solo há uma mãe, que morre de não se respeitar”, canta o artista e ativista francês Manu Chao, em referência à chamada pátria mãe e a essência do povo. Sobre isso, lembra-se da questão da democratização do acesso à cultura do Brasil, essencial para a conexão do povo com sua própria origem. Todavia, há empecilhos para a sua concretização, a citar: preponderância da cultura-valor sobre a cultura alma-coletiva, criando uma elitização, bem como laconismo na ação governamental para mitigação.
Em primeira análise, é preciso entender o que significa cultura para debater sua democratização. Como escreve o antropólogo Franz Boas, se de um lado a cultura alma-coletiva considera que o conceito é algo que todos têm enquanto conjunto de práticas sociais, a cultura-valor versa que há hábitos considerados superiores, mais valorizados, como a erudição. Assim sendo, pode-se perceber que é comum que haja uma negação de que valores e tradições vindos de camadas populares são cultura, tornando esta um modelo elitizado a ser replicado. Desse modo, democratizar o seu acesso passa a significar o consumo de obras que não refletem valores e tradições sociais, mas que proporcionam o acúmulo de cultura-valor.
Além disso, é importante lembrar da falta da ação governamental para mudar a situação. Como aponta a antropóloga Lília Schwarcz, a cultura e o acesso a obras são fundamentais para o entendimento das origens do povo por ele mesmo. Todavia, o poder público apresenta ações insuficientes para mudar a situação: há baixos investimentos para democratizar a área, tanto no sentido de dar espaço a grupos marginalizados, quanto para incluir espectadores mais pobres.
Portanto, propõe-se, pois, que o Poder Legislativo federal, por meio da Lei Orçamentária, destine uma parte dos recursos para investimento na cultura. Deve-se ter foco em grupos pequenos e marginalizados, bem como em parcelas sociais mais carentes, expandindo políticas como o vale-cultura. Assim, a cultura alma-coletiva, que representa o que o povo realmente é, terá mais voz para se expressar e mais pessoas para ouvir.