A democratização do acesso à cultura no Brasil
Enviada em 20/09/2021
Em um trecho da obra “A hora da estrela”, a jovem Macabéa pergunta o significado da palavra “cultura” ao seu namorado Olímpico,o qual, por desconhecer o termo, desconversa. Apesar de escrita há mais de quatro décadas, tal passagem dialoga com a realidade atual de diversos brasileiros que, tão humildes quanto os personagens supracitados, permanecem à margem do acesso aos aparatos culturais — ainda não democratizados no Brasil. Nesse sentido, dois fatores obstam a supracitada democratização: a herança aristocrática da arte e os altos preços dos ingressos.
A princípio, observa-se que a vinculação histórica da produção cultural às elites dificulta a democratização do acesso às artes. Quanto a isso, a história do país demonstra que determinadas práticas culturais, como as pinturas e os recitais, eram — desde os períodos colonial —, restritas à apreciação dos mais ricos. Na contemporaneidade, mesmo que os quadros tenham sido incorporados às galerias e os recitais transformados em “shows”, a herança supracitada ainda permeia a noção coletiva de que tais bens são tão próprios dos aristocratas quanto outrora. Constrói-se, assim, uma massa de marginalizados que pouco se mobiliza para ocupar teatros, por exemplo, já que o legado histórico supracitado os mantêm inertes.
Outrossim, os altos preços dos ingressos para frequentar cinemas e concertos, por exemplo, contribuem para a problemática. Sobre isso, o Estado criou a lei “Vale-cultura”, segundo a qual os trabalhadores com carteira assinada devem receber 50 reais para o usufruto de produtos culturais, como musicais e museus. A prática, no entanto, demonstra que essa medida não é tão efetiva quanto o pretendido. Isso ocorre porque as entradas para os espetáculos de músicos nacionais, como Chico Buarque, por exemplo, chegam a custar até dez vezes mais que o ofertado pela legislação ao labutador, segundo dados do jornal Folha de Pernambuco. Dessa forma, os mais humildes permanecem distantes das poltronas das casas de “shows” do país.
Em suma, para democratizar o acesso à cultura, deve-se atuar em dois âmbitos. Primeiro, a Secretaria da Cultura deve incentivar o usufruto dos bens culturais por todos, mediante a veiculação de campanhas - na televisão e internet -, que abordem a importância do reconhecimento dos museus e teatros, por exemplo, como direito coletivo, a fim de superar a herança aristocrática da arte. Segundo, ao mesmo ator supracitado cabe facilitar o acesso dos mais humildes às artes, por meio de parcerias público-privadas, para ampliar o valor do “vale- cultura”, com o fito de permitir o usufruto a aparatos culturais diversos.