A democratização do acesso à cultura no Brasil
Enviada em 21/09/2021
No livro “1984”, do escritor britânico George Orwell, o Estado restringe e manipula o acesso à cultura por parte da população, a fim de exercer cada vez mais controle das memórias históricas e de pensamentos. Fora da distopia, embora o Brasil não tenha como forma de governo um regime totalitário, a pouca democratização do acesso à cultura em âmbito nacional, causada pela pouca atenção do Estado a esse problema, além da negligência do povo em relação à sua soberania intelectual e cultural, beneficiam essa estrutura de poder e possibilitam o surgimento de mecanismos de controle social. Assim, essa conjuntura é inconcebível e merece um olhar crítico de enfrentamento.
Diante disso, Victor Hugo - inspiração da Geração Condoreira do Romantismo brasileiro - ao afirmar que quem poupa a vida do lobo sacrifica a ovelha, estabeleceu uma relação atemporal e universal de causa e consequência. Nesse contexto, o Estado, ao desenvolver e aplicar poucas e ineficazes políticas públicas as quais visem o efetivo acesso à cultura no país, poupa o lobo, enquanto a população nacional, equivalente à ovelha na metáfora do romancista francês, sofre. Desse modo, torna-se iminente a manutenção do estado subdesenvolvido e segregatório do Brasil, no qual uma pequena elite financeira tem acesso a conhecimento, lazer e desenvolvimento da criticidade, diferentemente da maioria da população. Logo, é imprescindível a dissolução das causas e efeitos desse problema.
Ademais, conforme Jurgen Habermas, a “ação comunicativa” consiste na capacidade de as pessoas debaterem e lutarem pelo que acreditam ser melhor para a comunidade, demandando ampla interatividade prévia. Sob esse sentido, a exacerbada presença de mídias digitais e tecnologia na vida da população, somada à consequente pouca exigência de diálogo interpessoal real, provocam a acriticidade de grande parcela dos usuários desses veículos. Dessa maneira, sem o uso produtivo das redes sociais por parte das pessoas socialmente conscientes, a tendência é que a discussão acerca da democratização do acesso à cultura no Brasil seja desvalorizada e cada vez menos pessoas tenham a oportunidade de possuir soberania intelectual e criticidade.
Portanto, medidas com real potencial de atenuar essa situação são imprescindíveis. Nessa ótica, é dever do MEC (Ministério da Educação), em parceria com as Secretarias Estaduais de Educação e a Secretaria Especial da Cultura, promover o contato dos alunos das instituições brasileiras de ensino com essa temática - a partir da inserção de momentos e debates ministrados por profissionais da área na carga horária e pedagógica das escolas - a fim de democratizar a cultura no país e formar gerações intelectualmente soberanas. Somente assim, será possível fazer do Brasil uma nação onde a cultura tem espaço, é valorizada e contribui para um futuro melhor.