A democratização do acesso à cultura no Brasil

Enviada em 31/05/2022

O filme “Bastardos inglórios” mostra o caráter elitista das exibições de cinema, uma vez que eram realizadas em espaços de socialização das classes ricas do século XX. Nesse viés, na contemporaneidade, nota-se que a realidade pouco se difere do retratado na obra cinematográfica: o acesso à cultura no Brasil revela-se segregacionista e antidemocrático. Por conseguinte, convém discutir a respeito das causas desse imbróglio, a fim de mitigar os impactos nocivos à sociedade brasileira.

Em primeira análise, é possível destacar que o meio artístico dialoga com uma elementar necessidade social, tendo em vista a constante busca humana pelo prazer lúdico, capaz de garantir a coesão da comunidade. Todavia, o capitalismo atua como mecanismo de mercantilização do lazer. Nesse sentido, populações com menor poder aquisitivo são vetadas ao acesso a produções artísticas. Em decorrência, há o não cumprimento do artigo 215 da Constituição Federal, que afirma que os bens culturais são direitos de todos e devem ser concebidos com absoluta prioridade por parte do Estado. Assim, configura-se o que propõe “A Divina Comédia”: “as leis existem, mas quem as aplica?”

Outrossim, os mecanismos de conhecimento cultural se mostram elitistas e segregacionistas. A esse respeito, o livro “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, discorre com clareza a respeito da escravização de povos africanos e a migração destes para periferias, após a assinatura da Lei Áurea, sendo “empurrados” para a margem da sociedade, sem livre acesso aos mesmos privilégios da outrora “casa grande”, e fadados a uma “nova senzala”: analogamente, cinemas, teatros, salas de exposição e afins estão localizados, majoritariamente, em centros urbanos e zonas de elite, isolando bairros pobres.

Infere-se, portanto, que o Ministério da Cultura e o Ministério de Infraestrutura, construam polos públicos de difusão cultural em locais democráticos, isto é, que atendam a maior parte da população, por meio da utilização de verbas governamentais, a fim de atender o cidadão que não pode pagar por esse serviço, para que, assim, o acesso aos bens culturais seja vulgarizado e não se perdure o eletismo revelado por “Bastardos inglórios” ou a segregação comentada por Gilberto Freyre.