A desvalorização da ciência no Brasil
Enviada em 04/07/2019
Adaptação ao tema: Ciência e Ética no Brasil
Apenas teoria
À mercê do cenário racional-desenvolvimentista do século XVIII, o movimento iluminista firmou, como um dos seus maiores legados, a promoção da responsabilidade científica face aos avanços técnicos. Antagônico a essa premissa, o contexto brasileiro atual, pautado pela negligência de diversos agentes sociais na gestão de valores inerentes à vida, põe em xeque princípios éticos, bem como a teoria prezada no século das luzes. Impende, portanto, um olhar maior de enfrentamento à causa.
Em primeiro plano, é consistente frisar que a perpetuação de mecanismos, nos quais contribuem ao desenvolvimento científico atual, prioriza, sobretudo, argumentos econômicos frente à lucidez ética. Nesse sentido, essa afirmação se concretiza em meio a crescente disseminação de agrotóxicos na agricultura moderna, que, segundo um estudo publicado pelo jornal ‘‘Le Monde’’, constitui-se um dos fatores mais facilitadores de doenças relacionadas à alimentação na atualidade — a ser, ainda, predileta por produtores, visto ao baixo custo. É paradoxal, pois, que mesmo em Estado Democrático de Direito, um valor ao qual rege tal órgão de autoridade esteja atenuado no Brasil: o direito à vida.
Ademais, é coerente a afirmação de que o organismo mais afetado pela coexistência de artefatos científicos na atualidade, a sociedade civil, encontra-se posta à margem de decisões e criações progressistas. Isso se evidencia, a exemplo, pela diversidade de alimentos industriais difundidos nas prateleiras de mercados, cujos abarcam centenas de componentes químicos na receita, invisíveis ao consumidor — face às nomenclaturas nos rótulos, destoantes do repertório sociocultural geral. Dessa forma, evidencia-se que é de caráter ético a clara informação aos diversos personagens sociais, visto que, consoante a René Descartes, pensar e questionar são os vieses mais valiosos nos indivíduos.
Por dedução, logo, torna-se ocular e indispensável a adoção de medidas que, no mínimo, atenuem os impactos negativos firmados pelo declínio ético frente à ciência. Assim, compete ao comitê de ética governamental intensificar as ações de cunho fiscalizador, periodicamente, a fim de acompanhar criações científicas e, apenas aprová-las à exposição pública, quando houver garantia, por órgãos comunitários, como os Direitos Humanos, que tal aparato não abalará, significativamente, o meio coletivo. Por conseguinte, com a aplicação dessa conduta, construir-se-á um cientificismo mais ético e enfatizaria, na prática, o legado iluminista, que antes era apenas teoria.