A desvalorização da ciência no Brasil

Enviada em 07/06/2020

O livro Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, retrata o vilarejo fictício “Macondo”, isolado geográfica e tecnologicamente de tudo. Um de seus fundadores, José Arcadio Buendía, dedica a sua vida às infrutíferas tentativas de conectar Macondo ao mundo por meio da ciência e novidades tecnológicas, morrendo, porém, frustrado e consciente de que o vilarejo foi condenado a estagnação pela aversão ao que é novo de seu próprio povo. Análoga ao romance de Gabo, tem-se, no Brasil, a persistente desconfiança na ciência, criadora e criatura de um ciclo vicioso de ignorância popular e que sentencia o país a condição perpétua de “país em desenvolvimento”.

Em primeira análise, a descredibilização dos cientistas é, por exemplo, o principal fator no desrespeito às recomendações médicas para combate à COVID-19, os brasileiros são bombardeados a todo momento com informações sobre as medidas sanitárias que devem ser tomadas para prevenção, mesmo assim o desrespeito e o descuido persistem. A população não carece de informação, mas sim de capacidade de interpretá-la por desconhecer tanto o que é quanto o valor do método científico. Cria-se, portanto, este ciclo em que o povo sofre por sua ignorância que provoca a desvalorização do próprio conhecimento, impedindo-o de se libertar.

Ademais, a revolução técnico-científica-informacional é o passo indispensável para que o Brasil atinja o patamar de país desenvolvido. Os sucessivos cortes orçamentários na educação superior, que se intensificaram no atual governo, promovem o chamado “exílio científico”, o processo que descreve a fuga de pesquisadores de uma nação para outra, em busca de subsídio para seus trabalhos em um lugar que os valorize. Dessa forma, o aumento da imigração dos profissionais capazes de trazer a inovação ao país por meio da ciência torna o desenvolvimento uma utopia.

Logo, é necessária uma reforma na educação de base, que melhorará sua inclusão e qualidade, com a finalidade de se acabar com ignorância a longo prazo. Enquanto, a curto e médio prazo, o MEC deve aumentar os investimentos nas universidades brasileiras bem como amparar seus profissionais, com a concessão de novas bolsas de pesquisa e ressarcimento das que foram cortadas, a fim de solucionar a questão do exílio científico. Assim, os pesquisadores não terão o mesmo fim de José Arcadio Buendía, com seus sonhos frustrados por um povo incapaz de ver beleza na ciência e resignado, tal qual o seu vilarejo, a viver para sempre no isolamento e solidão.