A desvalorização da ciência no Brasil

Enviada em 31/12/2020

O incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, chocou a complitude da população, cuja maioria sabia, pela primeira vez, da relevância de um acervo rico e de pesquisadores dedicados. Certamente, a desvalorização da ciência no Brasil é antiga, a ponto de um patrimônio incomparável ser destruído tão facilmente. Afinal, tal desídia é fruto de uma visão limitada do conhecimento como gasto, algo incompatível com os princípios da cidadania.

Inicialmente, a falta de compreensão da ciência como um investimento é um fator relevante, no que tange à desvalorização da área. Nesse sentido, permeia a sociologia brasileira o que o intelectual Sérgio Buarque de Holanda cunhou por “espírito aventureiro”, fruto da colonização portuguesa. Em contexto, firmou-se uma lógica imediatista de apropriação de riquezas. Analogamente, não se enxerga o rigor do método científico, o qual demanda uma prática de longo prazo. Como demonstração, a certeza de receitas instantâneas garante à complexa tecnologia do pré sal e à mecanização de uma das agriculturas mais modernas do mundo, investimento máximo. Enfim, o corte de 50% do ministério responsável pelo fomento ao desenvolvimento técnico-científico brasileiro, em 2017, perfaz a inépcia completa de governantes sem planejamento futuro, perdidos no mar da ignorância.

Em segundo plano, ignorar a ciência é negar cidadania, visto que, de acordo com o célebre divulgador científico Carl Sagan, o conhecimento por ela gerado pertence a todos e todas. Diferentemente de países desenvolvidos, como os Estados Unidos e a França, o escasso investimento brasileiro em pesquisas alija o país de inserção em fenômenos globais promissores e irreversíveis, tais como a corrida espacial contemporânea e o desenvolvimento sustentável. Assim, a inutilização da base aeronáutica de Âlcantra, cuja localização estratégica poupa combustível fogueteiro, e a desvalorização do potencial socioeconômico amazônico deixam de enriquecer uma nação pobre e desigual. Portanto, tais perdas ignoram o princípio cidadão da dignidade, na medida em que asseguram a miséria perpétua ao Brasil- a solidão de um “país do futuro”.

Em suma, a desvalorização nacional dos cientistas parte da ignorância de visão da área como gasto e conclui na privação de cidadania aos indivíduos. Urgentemente, o Brasil deve elaborar um projeto de Estado (não de governo), por meio de leis, que garanta investimentos às pesquisas, como o aumento irrevogável de verbas destinadas a bolsas de estudo, para que a República goze de pleno desenvolvimento. Só assim, a cidadania se fará completa.