A desvalorização da ciência no Brasil

Enviada em 08/07/2021

Na copa do mundo de 2014, o cientista brasileiro Miguel Nicolelis criou um exoesqueleto que auxiliou um tetraplégico a chutar uma bola, mas o momento significativo para o desenvolvimento do conhecimento não teve atenção da mídia televisiva. Sob esse prisma, é notória a histórica desvalorização da ciência no Brasil, devido à dinâmica da modernidade e ao avanço do anti-intelectualismo.

Em uma primeira análise, observa-se que a filosofia da “Indústria Cultural”, advinda da Escola de Frankfurt, explica como a valorização da ciência é exígua em uma sociedade dinâmica. Em sua visão, o sistema capitalista estimula um conhecimento simplificado para alcançar a massa como estratégia de controle social. Nessa pespectiva, os indivíduos optam por tal facilidade, já que a ciência é um conhecimento construído ao longo do tempo, o qual demanda tempo e dedicação. Logo, nota-se que a conjuntura da modernidade reverbera na baixa apreciação do avanço da tecnologia, a exemplo da baixa divulgação do exoesqueleto do Miguel Nicolelis na TV, pois tal engenharia deveria ser um marco da ciência brasileira transmitida nas redes midiáticas.

Ademais, em uma segunda análise, mais contundente, verifica-se o crescimento do movimento anti-ciência, a exemplo do anti-vacina, o qual descredibiliza de maneira errônea o progresso do conhecimento. Nesse sentido, o sociólogo Edgar Morin explana a necessidade da educação para a complexidade, com o intuito dos indivíduos entenderem o mundo de forma racional e crítica descontruindo, assim, a tendência ao anti-intelectualismo. Esse quadro, por conseguinte, deve-se ao falho ensino escolar em evidenciar as produções científicas como meio do progresso do mundo. Desse modo, a educação deficitária em mostrar a relevância do desenvolvimento técnico-científico-informacional contribui para a tendência de suspeição ao pensamento intelectual.

Percebe-se, portanto, a importância da valorização da ciência para o avanço da sociedade. De início, cabe ao Ministério da Educação - órgão responsável pelas políticas educacionais em âmbito nacional - promover atividades, por meio de aulas interdisciplinares de Matemática e Ciências da Natureza, os quais fomentem uma educação complexa, de acordo com Edgar Morin, com o intuito de articular uma visão crítica e ativa do meio social para evitar a tendência anti-intelectualismo. Paralelo a isso, o Governo Federal deve tornar obrigatório as redes de comunicação televisiva mostrar ao menos uma vez ao mês, em horário nobre, os resultados de pesquisas científicas, mediante punição financeira do canal de TV caso não cumpra, com o objetivo de desconstruir o projeto de controle social da massa, advinda da “Indústria Cultural” e, então, reconhecer e prestigiar trabalhos científicos, com o do Miguel Nicolelis.