A desvalorização da ciência no Brasil

Enviada em 31/08/2021

Policarpo Quaresma, protagonista de Lima Barreto, do clássico livro “O triste fim de Policarpo Quaresma”, sempre teve como característica mais marcante um nacionalismo ufanista, acreditando em um Brasil utópico. Entretanto, a falta de valorização à ciência torna o país ainda mais distante do imaginado pelo sonhador personagem. Nesse contexto, percebe-se a configuração de um grave problema de contornos específicos, em virtude da negligência estatal e do fator sociocultural.

Primeiramente, vale ressaltar a ausência de compromisso do Estado com o desenvolvimento de pesquisas. De certo, a falta de incentivos na área científica e na acessibilidade de verbas para o desenvolvimento das pesquisas é a realidade enfrentada no país, resultando nos diagnósticos tardios e na própria exclusão de uma parcela significativa da sociedade. Segundo o filósofo John Rawls, em sua obra “Uma teoria da justiça”, um governo ético é aquele que disponibiliza recursos financeiros para todos os setores públicos, promovendo igualdade de oportunidades a todos os cidadãos. Sob essa óptica, torna-se evidente que o Brasil não é um exemplo do pensamento desse teórico, visto que negligencia os pesquisadores e desenvolvedores de tecnologias, submetendo-os à periferia da cidadania

Ademais, é importante considerar o fator grupal. Conforme o pensador Jurgen Habermas, a razão comunicativa – ou seja, o diálogo – constitui etapa fundamento do desenvolvimento social. Nesse ínterim, a falta de estímulo ao debate a respeito do corte de verbas nas pesquisas e suas consequências para toda a sociedade, todavia, coíbe o poder transformador da deliberação e, consequentemente, ocasiona um mau desenvolvimento civilizatório em virtude dessa estar correlacionada diretamente com a ciência. Destarte, discorrer criticamente a problemática é o primeiro passo para consolidação do progresso sociocultural habermaseano.

Entende-se, portanto a temática como sendo um obstáculo intrínseco de raízes culturais e legislativas. Logo, a mídia, por intermédio de programas televisivos de grande audiência, irá discutir o assunto com profissionais especialistas nessa área, com o objetivo de mostrar as reais consequências do problema, apresentar a visão crítica e orientar os espectadores a respeito do impasse. Essa medida ocorrerá por meio da elaboração de um projeto estatal, em parceria com o Ministério das Comunicações. Em adição, aumentar a verba destinada para o desenvolvimento de novas pesquisas. Desse modo, uma teoria da justiça de John Rawls será devidamente aplicada.

Em segundo lugar, ressalta-se que há, no Brasil, uma evidente falta de informações sobre transtornos mentais, fomentando grande preconceito e estranhamento com essas doenças. Nesse sentido, é lícito referenciar o filósofo grego Platão, que, em sua obra “A República”, narrou o intitulado “Mito da Caverna”, no qual homens, acorrentados em uma caverna, viam somente sombras na parede, acreditando, portanto, que aquilo era a realidade das coisas. Dessa forma, é notório que, em situação análoga à metáfora abordada, os brasileiros, sem acesso aos conhecimentos acerca dos transtornos mentais, vivem na escuridão, isto é, ignorância, disseminando atitudes preconceituosas. Logo, é evidente a grande importância das informações, haja vista que a falta delas aumenta o estigma relacionado às doenças mentais, prejudicando a qualidade de vida das pessoas que sofrem com tais transtornos.