A desvalorização das ciências humanas no Brasil
Enviada em 03/03/2022
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago expõe o fenômeno da cegueira moral, na qual a sociedade aliena-se frente às demais realidades sociais e que é fomentado pela restrição do pleno acesso à informação. Esse cenário nefasto é observado na desvalorização das ciências humanas no Brasil, e ocorre não só em razão da não aplicação dos direitos constitucionais, como também devido as for-mas educacionais vigentes na nação. Deste modo, faz-se imperiosa a análise da conjuntura com o fito de mitigar a problemática.
Primordialmente, é necessário destacar a forma como parte do Estado brasileiro costuma lidar com as ciências humanas. Neste sentido, conforme afirmou o escri-tor Gilberto Dimenstein em sua obra “Cidadão de papel”, a legislação brasileira é ineficaz, visto que, embora aparente ser completa na teoria, muitas vezes não se concretiza na prática. Prova disso é a escassez de políticas públicas satisfatórias voltadas a aplicação do artigo 6º da “Constituição cidadã”, que garante, entre tantos direitos, a educação. Este direito é deturpado, visto o pequeno financiamen-to que as ciências humanas recebem no país, além do pouco reconhecimento do cientista das humanidades. Assim, infere-se que nem mesmo o princípio jurídico foi capaz de garantir a valorização deste fazer científico.
Outrossim, é igualmente preciso apontar a educação, nos moldes predominan-tes do país, como outro fator que contribue na manutenção do imbróglio. Neste sentido, é justo relembrar a obra “Pedagogia da autonomia”, do patrono da educação brasileira Paulo Freire, na medida em que ela destaca a importância das escolas em fomentarem não só o ensino técnico-científico, mas também habilidades socio-emocionais, como respeito e empatia. Sob essa ótica, é possível afirmar que a maioria das instituições de ensino brasileiras, uma vez que não estimulam estas habilidades, não contribuem na valorização das ciências humanas e, portanto, não fomam indivíduos da maneira a qual Freire idealizou.