A desvalorização das ciências humanas no Brasil

Enviada em 11/03/2022

Carl Sagan, renomado astrofísico americano, costumava dizer que “nós somos o universo contemplando a si mesmo”. Ele se referia a capacidade humana de compreender sua própria natureza e a do mundo exterior através da observação e do uso da ciência. É ela que nos ajuda a internalizar não apenas os elementos externos que regem o mundo, mas também nós mesmos, e em tempos como esses é crucial que esses instrumentos não sejam deixados ao relento.

No século XVIII, quando o mundo foi transformado profundamente duas vezes pela Revolução Francesa e pela Revolução Industrial, Augusto Comte, filósofo positivista, propôs a criação de uma ciência que fosse capaz de analisar as estruturas da sociedade e compreender suas transformações. Essa ciência foi a sociologia, e através dela a humanidade abriu portas para novas reflexões sobre si mesma e seus processos de mudança. Quando o mundo se alterou novamente com as grandes guerras do século XX, as ciências humanas estavam presentes para apontar as causas dos males e compreender o surgimento de fenômenos ideológicos como o facismo e o nazismo.

Agora, com a pandemia do Covid-19, o mundo passa por transformações radicais novamente. Com uma estrutura econômica global em colapso, uma crise dos sistemas de saúde e o deterioramento das relações sociais, as ciências humanas se fazem mais que necessárias para o compreendimento dos impactos dessas situações em nossas relações sociais e as futuras consequencias delas. Os avanços tecnológicos dos dois últimos séculos contribuiram para a aceleração dessa metamorfose social e, nesse ritmo, o processo de desmonte, não só das humanidades, mas também das universidades como um todo, trará consequencias devastadoras para as futuras gerações.

É importante que tenhamos a compreensão da importância das ciências humanas como instrumento de análise e entendimento de nossas relações e características, especialmente durante tempos de crise. Se nós somos o universo em processo de autocontemplação, então deveriamos nos autocontemplar e nos avaliar, e o melhor instrumento para isso são as humanidades.