A desvalorização das ciências humanas no Brasil
Enviada em 05/07/2022
A sociedade não sobrevive sem as ciências humanas no Brasil
A recente medida do governo Jair Bolsonaro que excluiu os cursos de humanas do edital de bolsas de Iniciação Científica do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) gerou uma grande mobilização das universidades públicas, de instituições científicas e até da sociedade civil. Segundo a portaria, anunciada no final de abril, estudantes de graduação de áreas como educação, direito, economia, ciências sociais e filosofia não poderiam concorrer às 25 mil bolsas oferecidas pelo órgão federal, já que eram priorizadas áreas tecnológicas, em detrimento das humanidades e ciências básicas. A repercussão nacional foi o motivo do recuo na decisão, e agora a área de ciências humanas volta a fazer parte do edital.
“Precisou uma grande pressão nacional para que o governo reconhecesse a importância dessas ciências para o desenvolvimento científico e tecnológico”, afirma a professora Marta Amoroso, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Ainda que houvesse indicativos de que pesquisas de humanas ligadas a esses setores de ponta fossem contempladas, estávamos lendo isso como um corte”, diz, contando que o CNPq voltou atrás e vai lançar um novo edital. “Provavelmente foi uma estratégia de corte direcionado para humanas, mas como a sociedade civil e científica reagiu, houve o recuo”, comenta.
As consequências da não valorização das ciências humanas, segundo Pimenta, são a incapacidade de se converter o entendimento da realidade em projetos nacionais consistentes; a disseminação de valores e atitudes individuais sobre as coletivas; o esvaziamento da política como espaço de equação das necessárias diferenças de opinião; o desmoronamento da própria concepção de sociedade, substituída com crescente eficácia por raciocínios intelectualmente indigentes acerca da suposta “eficácia” ou “eficiência” de mecanismos de ajustes sociais pautados por uma também suposta lógica de “mercado”.