A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil
Enviada em 26/03/2021
Em “Morte e Vida Severina”, obra do poeta modernista João Cabral de Melo Neto, observa-se uma postura resiliente de seu protagonista, apesar de todas as dificuldades que surgem. Pode-se tomar esse posicionamento resiliente como elemento norteador para as discussões sobre a desvalorização do trabalho voluntário no Brasil, já que, diante deste entrave, resistir é fundamental. Nessa perspectiva, é interessante analisar essa questão no país.
Inicialmente, observa-se que o Poder Público apresenta-se inerte ao permitir essa desvalorização. Isso porque existe uma falha no processo de elaboração de leis, uma vez que o ordenamento jurídico em vigor não prevê a redução significativa de impostos sobre as empresas que fizerem doações para ações voluntárias que auxiliam pessoas em situação de rua, por exemplo, o que não fomenta práticas solidárias de apoio social. Logo, verifica-se que o Estado não tem garantido o bem-estar de toda a população, demonstrando, desse modo, a ruptura do contrato social teorizado pelo filósofo Jean-Jacques Rousseau.
Além disso, enfatiza-se que essa desvalorização é um reflexo dos estereótipos que existem na sociedade. Sabe-se, pois, que o trabalho voluntário tem sido marginalizado, o que se explica a partir da crença, transmitida culturalmente, de que é um serviço que não traz benefícios pessoais em um mundo capitalista, desconsiderando, porém, que esse ato tenta equilibrar as desigualdades geradas por essa forma de organização social. Para compreender esse cenário, pode-se tomar como base os estudos do filósofo Friedrich Nietzsche, os quais constatam que a escassez de informações pode deturpar a realidade.
Ressalta-se, em suma, que a falta de valorização do trabalho voluntário deve ser superada. Portanto, é necessário exigir do governo, mediante debates em audiências públicas, a criação de uma legidlação mais justa, priorizando a redução de impostos para empresas que apoiam causas sociais voluntárias, com o objetivo de garantir o direito à cidadania de todo indivíduo. Ademais, é fundamental sensibilizar a população, via campanhas midiáticas produzidas por ONGs, sobre a importância de se reconhecer as ideologias preconceituosas sobre voluntáriar-se, potencializando, assim, a desconstrução da visão limitada de que essa atitude não contribui para a formação de um mundo mais harmônico. Dessa forma, a resistência apresentada em “Morte e Vida Severina” não ficaria restrita à obra.