A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil
Enviada em 29/03/2021
O projeto “Criança esperança” visa garantir o apoio financeiro e a participação social no auxílio a instituições que protejam os direitos das crianças e dos adolescentes no país. Assim como essa campanha, o trabalho voluntário tornou-se essencial para a sociedade brasileira, marcada pela desigualdade e negligência, muitas vezes, por parte do Estado. Contudo, apesar de serem fundamentais para o bem-estar coletivo, tais ações solidárias são desvalorizadas no Brasil, devido, principalmente, à formação de uma ideiologia egocêntrica e à banalização dos problemas sociais.
A priori, é válido ressaltar que a desvalorização do trabalho voluntário no país está relacionada a uma construção cultural que prestigia o crescimento econômico em detrimento ao cuidado com o próximo. Tal perspectiva baseia-se na teoria do sociólogo Karl Marx, o qual afirma que a infraestrutura dirige a superestrutura, ou seja, no atual mundo capitalista, os meios de produção são responsáveis por criar uma ideologia que molda os diversos aspectos da vida humana. Nessa lógica, percebe-se como essa concepção reflete na sociedade brasileira, já que o acúmulo de capital e o avanço profissional são um dos principais fatores valorizados atualmente. Dessa forma, a mobilização social em prol de alguma obra ou projeto solidário vai de encontro ao pensamento egocêntrico e à busca pelo poder aquisitivo que move grande parte da população, o que prejudica o engajamento cívico.
Ademais, é necessário destacar que a desvalorização do trabalho voluntário ocorre, muitas vezes, devido à normalização das adversidades sociais que marcam o Brasil. Tal concepção está associada à teoria da “Banalização do mal”, da filósofa alemã Hannah Arendt, a qual afirma que males tornaram-se tão comuns na sociedade que passaram a ser banalizados. Essa ideia fica clara ao se analisar a população brasileira, em que diversos indivíduos caracterizam como comum a atual conjuntura nacional, marcada pela pobreza e pela desigualdade socioeconômica. A partir dessa perspectiva, nota-se que essa negligência em relação ao bem-estar do outro cria uma indiferença e desinteresse na busca por ações que possam mudar e melhorar a realidade dos sujeitos em situações precárias.
Logo, para que o trabalho voluntário seja valorizado, as escolas devem criar uma cultura de solidariedade, por meio de palestras que levem coordenadores de organizações de caridade e pessoas que foram ajudadas por essas ações para que esclareçam e relatem a importância desses movimentos. Além disso, esses centros educacionais devem promover projetos extraclasse que levem os alunos e familiares para participarem de atividades solidárias, a fim de que o engajamento cívico torne-se uma realidade no Brasil. Ademais, o Estado precisa incentivar essas instituições mediante auxílio financeiro e propagandas nas mídias sociais, para que, assim, essas iniciativas sejam estimuladas e reconhecidas.