A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil

Enviada em 29/03/2021

Celebridades fazem viagens à África para ajudar a população carente e adotam crianças africanas e fazem arrecadações para populações sem acesso a comida ou água. Todas essas ações são divulgadas amplamente pelas próprias redes sociais dos famosos e seus patrocinadores. Isso gera uma mercantilização da ação voluntária que privilegia um local em detrimento de outro, afinal é mais notório e confortável ir para tribos africanas e ficar em hotéis luxuosos a ir para o sertão nordestino, que apresenta a mesma realidade. Com base nesse viés, é fundamental entender a comercialização do voluntariado no Brasil, bem como suas consequências para a desvalorização de tal ato.

É importante, primeiramente, admitir que as constantes ações voluntárias perpetuadas por famosos para levar alimentos e água para regiões desertícas da África não passam de uma atividade de autopromoção. Isso acontece, muitas vezes, porque a celebridade em questão está em baixa ou com pouca visibilidade midiática e, para se promover, faz ações voluntárias em outro continente. Influenciados por essas ações de grande repercussão, os seguidores desses influenciadores, tomando como base a ideia da Tabúla Rasa de John Locke que diz que o indivíduo é como uma tela em branco que é preenchida por ações que o redeiam, privilegiam os atos voluntários voltadas para o outro continente por ser um local de grande foco entre os influenciadores. Com a influência restaurada e de volta ao Brasil, o celébre recebe propostas de propagandas, o que lhe garante uma maior rentabilidade.

Em segunda análise, consequentemente, a alta valorização de campanhas voluntárias para países estrangeiros reflete em uma grande dificuldade de se manter uma instituição de ajuda voluntária dentro de um país com grandes disparidade climáticas e econômicas, o Brasil. Tal ato mascara a realidade sertaneja brasileira, que é tão ruim quanto a realidade de tribos africanas. Graciliano Ramos, em sua obra Vidas Secas, já retrata o sertão brasileiro, mostrando que a população sertaneja sofre de falta d´água, moléstias, descaso das autoridades, fome. Os poucos grupos voluntários que ajudam pessoas de municípios brasileiros assolados pela seca não possuem grande visibilidade ou ajuda.

Nota-se, portanto, que para haver um crescimento da valorização no trabalho voluntário do Brasil é preciso que, sobretudo, os influenciadores sociais divulguem e façam ações pelo sertão brasileiro. Tal grupamento social deve utilizar de seu poder de convencimento para espalhar a realidade brasileira, a partir de ações para arrecadação voluntária de água e alimentos feitas para as regiões de extrema pobreza. A arrecadação deve ser divulgada tanto nas mídias do artista como pelas redes televisivas locais. Dessa forma, mais atitudes voluntárias, seja de pequeno ou grande porte, serão valorizadas.