A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil
Enviada em 07/05/2021
Em 2019, tornou-se popular nos jornais uma fotografia na qual o bairro paulistano Morumbi, representado por um prédio de luxo, aparecia ao lado da favela de Paraisópolis, repleta de moradias precarizadas. Ao mostrar a convivência harmônica entre as piscinas privadas e as casas sem teto apesar de suas desproporções, a imagem sintetiza o panorama das interações humanas no Brasil, marcadas pela falta de senso coletivo. Essas relações devem, no entanto, ser modificadas, já que culminam na desvalorização do trabalho voluntário, o que tem como efeito, para o país, a permanente fragilização da estrutura pública.
Em primeiro lugar, cabe ressaltar que a pouca consciência de construção coletiva é o principal catalisador da problemática. De acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, a sociedade contemporânea é marcada pelo individualismo, de forma que os ganhos individuais se sobrepõem aos coletivos. Em consonância com o pensamento do autor, observa-se que não há espaço, na sociedade brasileira, para atos beneficentes, já que estes não possibilitam benefícios pessoais. Dessa forma, prevalecem os contrastes mostrados pela fotografia viralizada, de tal forma que não seja possível perceber engajamento, por parte dos moradores do edifício de luxo, para ajudar os vizinhos que vivem em situação precária. O individualismo, portanto, impede a plena prática do trabalho voluntário, uma vez que não reconhece as práticas coletivas como partes indispensáveis da vida pública.
Como consequência disso, verifica-se a constante debilidade das estruturas sociais. O filósofo Aristóteles, em ‘’Política’’, define o ser humano como um animal naturalmente político, ou seja, todas as suas ações são de cunho político e, por isso, têm reflexos diretos na sociedade como um todo. Analogamente, a escolha por não organizar ações beneficentes impacta negativamente a dinâmica coletiva, já que estas poderiam auxiliar a parcela da população que se encontra em condição de vulnerabilidade socioeconômica. A desvalorização do trabalho voluntário e sua consequente inatividade contribuem, então, para a continuidade da marginalização das conjunturas carentes, o que ameaça a devida coesão do corpo social.
Urge, então, que haja soluções para o quadro atual. Para que os cidadãos se informem sobre as ações já existentes, é preciso que as ONG’s divulguem suas iniciativas regionais por meio das redes sociais e da presença em espaços públicos, como os centros movimentados das cidades, de modo a destacar a importância dos impactos dessas ações, bem como a ressaltar a relevância da participação de todos. Somente assim, será possível amenizar o contraste visto na fotografia viralizada em 2019, consequência de uma sociedade na qual, infelizmente, o privado se sobrepõe ao coletivo.