A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil

Enviada em 10/05/2021

De acordo com dados divulgados pelo site Neo Energia, menos de 5% da população brasileira realiza trabalho voluntário. Esse número evidencia que a desvalorização dessa ação está presente na realidade do país, o que prejudica instituições e organizações que, sem arcabouço financeiro para sustentar determinados cargos, sofre com a falta das atividades voluntárias. Nesse sentido, percebe-se a configuração de um grave problema de contornos específicos, em virtude da escassez de discussão acerca da problemática e do individualismo.

Convém destacar, a pincípio, que o silenciamento social é uma barreira no que diz respeito a efetiva valorização do trabalho voluntário. Nesse contexto, Habermas traz uma contribuição relevante ao defender que a linguagem é uma verdadeira forma de ação. Assim, com base na lógica do filósofo alemão, a falta de debate acerca do problema não contribui para a sua resolução, uma vez que, sem informações, os interessados em realizar essa prática não conseguem, de fato, entender como ela funciona ou ter conhecimento das áreas de atuação que mais necessitam de voluntários. Percebe-se, desse modo, uma lacuna acerca dessa temática, que ainda é muito silenciada. Logo, trazer a questão à pauta e discuti-la amplamente aumentaria as chances de atuação nela.

Além disso, vale-se ressaltar que o individualismo é um dos fatores determinantes para a persistência dessa problemática. Na obra “Modernidade Líquida”, Zygmunt Bauman defende que a sociedade atual é fortemente individualista. A tese do sociólogo pode ser observada de maneira específica na realidade brasileira no que tange à desvalorização do voluntariado, visto que, por se tratar de uma tarefa não remunerada ou que não gera benefícios diretos para a vida pessoal, alguns indivíduos podem perder o interesse em realizá-la. Essa liquidez que influi sobre o tecido social representa um forte empecilho para a efetivação, em grande escala, das práticas voluntárias, desamparando, assim, os que necessitam da ajuda dos trabalhadores voluntários. Dessa forma, é de suma importância que haja alterações nesse cenário.

Portanto, medidas estratégicas são necessárias para alterar essa conjuntura. Para isso, é preciso que as escolas, em parceria com a prefeitura, promovam, no ambiente escolar, um espaço para rodas de conversa e debates sobre a importância do trabalho voluntário. Tais eventos podem ocorrer no período extraclasse, contando com a presença dos professores e convidados especialistas no assunto. Além disso, tais eventos não devem se limitar aos alunos, mas serem abertos à comunidade, a fim de que mais pessoas compreendam questões relativas a esse tema e se tornem cidadãos mais atuantes na busca de resoluções. Com isso, espera-se a atenuação da desvalorização dessa importante atividade.