A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil

Enviada em 21/07/2021

O trabalho voluntário é capaz de mudar a realidade de milhões de pessoas e de mobilizar tantas outras, como é o caso da “Ação Cidadania”, ONG fundada por Herbert de Sousa, o Betinho, em 1993. Apesar da importância, o voluntariado no Brasil vem diminuindo. A causa para tanto parece estar relacionada às inseguranças que permeiam a sociedade brasileira. Tal tese comprova-se ao se observar: primeiro, a insegurança econômica pela qual passa o país; e, também, a insegurança pública.

À princípio, a insegurança econômica instalada em reflexo ao declínio do “boom das commodities” (redução gradual da demanda de produtos agrícolas e minerais pelos mercados asiáticos) a partir de 2014, aumentou a taxa de desemprego no Brasil e corroeu a renda das classes média e baixa (dados IBGE). Esses fatores ampliaram o número de necessitados, e diminuíram o de cidadãos economicamente capazes de ajudar. Com isso, observou-se queda na quantidade de voluntários conforme divulgado pelo PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) em 2019. Portanto, a insegurança econômica dificulta a ajuda financeira, independente do desejo. Isso acaba sendo traduzido como uma desvalorização do trabalho filantrópico.

Também, a insegurança pública infla o medo e inibe que os cidadãos voluntariem-se. Conforme o Observatório de Segurança Pública da UNESP (portal da Universidade Estadual Paulista de informações sobre o tema), o sentimento de insegurança entre a população é crescente, o que se deve às altas taxas de criminalidade recorrentes. Tal insegurança física é exacerbada pela cibernética. Um exemplo disso foi o vazamento de dados de mais de 200 milhões de brasileiros conforme noticiado em janeiro de 2021. Dessa forma, quem tem medo de se voluntariar presencialmente acaba por se negar quando instituições sérias entram em contato virtualmente pedindo auxílio. Todos esses pontos aumentam a desconfiança geral e inibem a solidariedade, o que deprecia o voluntariado.

Por fim, não existe uma única proposta que solucione as causas apontadas como estimuladoras da desvalorização do trabalho voluntário. O que pode ser sugerido é uma ação com a finalidade de aumentar a visibilidade de instituições sérias e de ressaltar a importância da solidariedade, de forma a incentivar o voluntariado. Para tanto, o Ministério das Comunicações divulgaria de forma ampla o plataforma Pátria Voluntária, que já existe. Isso poderia ser feito por meio de campanhas publicitárias em redes sociais e em escolas, com o intermédio do Ministério da Educação. Assim, talvez, tal como na música “O bêbado e o equilibrista” de Aldir Blanc e João Bosco, possa-se sonhar com a volta de pessoas inspiradoras como o irmão do Henfil, Herbert de Sousa.