A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil
Enviada em 01/06/2021
No livro “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, o personagem padre José Pedro, que tenta ajudar as crianças que vivem na rua, em situação precária, recebe diversas advertências e punições por tal conduta. O livro, dessa forma, evidencia a desvalorização do trabalho voluntário no Brasil, que, segundo o IBGE, é realizado por apenas 4,3% da população. Observa-se que essa desvalorização tem como causas o consumismo e a ética de trabalho das religiões protestantes.
Primeiramente, tal atividade laboral é intensamente depreciada por conta do consumismo atual. Na Idade Contemporânea, o consumo como fim em sí passou a ser um dos principais paradigmas, o que resultou numa supervalorização do dinheiro. Isso é evidenciado por expressões culturais como o “Funk Ostentação”, que prega que a realização e o sucesso na vida está ligado a posse de bens materiais e de capital. Assim, o trabalho voluntário, por não ser remunerado, perde seu apelo para a sociedade e passa a ser desvalorizado pela mesma.
Além disso, a ética de trabalho das religiões protestantes teve um profundo impacto negativo sobre a atividade. Segundo Émile Durkheim, filósofo e sociólogo francês, as religiões puritanas pregavam que o sucesso financeiro era um sinal da graça divina, e, dessa forma, patrocinavam uma visão de mundo em que o trabalho e o acúmulo de bens era uma virtude. Portanto, o trabalho voluntário foi perdendo espaço à medida que a ética puritana se espalhava, resultando em sua atual depreciação.
Percebe-se, então, que as causas do atual menosprezo do labor opcional tem origem na mentalidade consumista e puritana da sociedade. Logo, para resolver essa problemática, torna-se necessário que o governo federal, por meio dos veículos de comunicação em massa, crie uma campanha publicitária que conscientize a população a respeito da importância do trabalho voluntário, salientando que a conquista monetária não é o valor supremo e que a realização e o sucesso na vida não precisam vir necessariamente do acúmulo de bens. Isso ajudaria não só a combater o atual quadro negativo para essa atividade, como também contribuíria para uma alteração da mentalidade consumista da população, a aproximando de uma sociedade mais sustentável.