A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil
Enviada em 15/06/2021
O projeto “Criança Esperança” busca a mobilização social em prol do auxílio de diversas crianças e jovens em situações de vunerabilidade. A partir dessa atividade solidária, percebe-se como o trabalho voluntário tornou-se essencial para proteger os direitos dos cidadãos e para garantir o bem-estar coletivo. Contudo, apesar de serem ações indispensáveis, nota-se como o individualismo e a banalização do sofrimento proporcionaram a desvalorização dessas práticas beneficentes no Brasil.
A priori, é importante abordar que a desvalorização do trabalho voluntário no país deve-se a formação egocêntrica dos indivíduos. Tal concepção baseia-se na teoria da “Modernidade Líquida”, do sociólogo Bauman, o qual afirma que a sociedade contemporânea é caracterizada pelo individualismo e pela liquidez das relações. Com base nessa perspectiva, observa-se que as ideologias atuais visam educar os sujeitos a valorizarem ações que garantam a conquista individual, especialmente o sucesso profissional e monetário, em detrimento a projetos que estimulam a alteridade, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro. Essa ideia fica clara ao se analisar o dado exposto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o qual mostra que apenas 4,3% dos brasileiros realizam atividades voluntárias. Desse modo, percebe-se que a falta de reconhecimento dada a essas práticas benificentes apoia-se em uma convicção retrógada de que a felicidade individual não depende do bem coletivo.
Ademais, é válido ressaltar que a desvalorização do trabalho voluntário ocorre, também, devido à normalização da precariedade no Brasil. Tal perspectiva está relacionada à teoria da “Banalização do Mal”, da filósofa Hannah Arendt, a qual afirma que males tornaram-se tão comuns na sociedade que os indivíduos passam a praticá-los sem perceberem os prejuízos dessas ações. A partir disso, percebe-se como essa ideia reflete a atual conjuntura nacional, em que a falta de mecanismos básicos para diversos cidadãos, como as pessoas em situação de rua, as quais vivem em extrema carência; são realidades consideradas , infelizmente, como normais para grande parte da população. Nesse sentido, devido à negligência social e à formação de uma cultura que naturaliza o sofrimento, atividades que visam ajudar o próximo e romper com esses males banalizados tornam-se cada vez mais escassas.
Logo, para que o trabalho voluntário seja valorizado, as escolas, principais instituições responsáveis por formar os cidadãos, devem desenvolver a empatia e a alteridade social, por meio de projetos que levem os alunos a participarem de atividades beneficientes na comunidade, a fim de que essas ações sejam reconhecidas. Ademais, as mídias digitais devem combater a banalização do sofrimento mediante documentários e reportagens que mostrem as realidades precárias de muitos sujeitos, para que, assim, essa infeliz ideia seja combatida e práticas voluntárias sejam mais comuns no país.