A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil
Enviada em 13/06/2021
Policarpo Quaresma, como de conhecimento geral, teve um triste fim. Triste, mas realista, pois sua pátria idealizada não correspondia ao Brasil real. Tanto pior seria se ele pudesse ver a atual situação vivida pelo voluntariado no país, o qual, mesmo sendo um projeto para auxíliar a parte marginalizada da população, vem sofrendo forte desvalorização pelo corpo social. Nesse viés, é mister entender como a apatia social, fomentada pela mídia, e a falha educação têm contribuido para a intensificação do problema e impedido a construção da nação pensada pelo personagem pré-modernista.
Sem dúvidas, é notório que a neutralização do senso populacional pelos meios de comunicação é um dos aspectos que potencializam a desvalorização do trabalho voluntário, no Brasil. Isso ocorre porque a imprensa exerce explícita influência sobre a criticidade dos sujeitos, a partir da espetacularização de notícias. Dessa forma, ao não propagarem informações acerca da importância das ações humanitárias para o desenvolvimento coletivo, a mídia tem legitimado o alheiamento social frente a essas práticas, visto que silencia as necessidades da parte menos favorecida, bem como banaliza o trabalho dos voluntários. Sob essa ótica, é nítido que a população tem vivido uma espécie de “Auschwitiz do pensamento”, fenômeno que foi explicado pelo jornalista José Arbex como a capacidade da indústria cultural de manipular a consciência coletiva e naturalizar entraves comunitários, como o descaso pelo voluntariado, o que culmina no desinteresse de individuos por essas ações.
Outrossim, o déficit educacional, também, corrobora o menosprezo sofrido pelo trabalho voluntário, no país. Essa questão acontece devido à execução de um ensino que visa somente o depósito de conhecimentos teóricos, em seus alunos, sem um processo de aprendizado que incentive a reflexão acerca do significante papel do voluntariado para o crescimento social e que coopere para a valorização dessa ação. Desse modo, são formados cidadãos individualistas, isentos de empatia e alteridade, e que banalizam a participação em ações sociais, já que desconhecem sua relevância. Tal lógica se enquadra no pensamento do pedagogo Paulo Freire, segundo o qual a educação “bancária” desestimula o pensamento autônomo e origina pessoas que só aspiram o benefício próprio.
Portanto, diante dessa omissão frente ao trabalho voluntário, é necessário a atuação do MEC na garantia de uma educação freiriana, nos âmbitos de ensino. Essa medida deve ocorrer por meio da capacitação de professores, os quais atuem no estímulo à valorização de ações sociais. Ademais, o Ministério das Comunicações, responsável pela mídia, deve ampliar debates sobre o tema, através de campanhas em TV’s e redes sociais, em horários nobres. Tudo isso, a fim de que se atinja grande parte social e que se formem seres críticos, os quais enalteçam o papel do voluntariado para a coletividade.