A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil

Enviada em 21/07/2021

Segundo Max Weber, insigne sociólogo alemão, em uma sociedade dominada pelo espirito do capitalismo, ações que não atribuem retorno financeiro ou benefícios são simplesmente inúteis e irrisórias pelo ponto de vista dos “possuídos”. Consoante a isso, tem-se, então, que a desvalorização do trabalho voluntário no Brasil é um dos principais supressores da possibilidade de uma garantia equalitária dos direitos humanos. De modo a fazer necessária uma análise do comportamento ganancioso dos indivíduos e da displicência estatal como os principais dificultadores para o voluntariado no país.

Com base nisso, tem-se que o individualismo se tornou um dos agentes a partir do momento que os indivíduos atribuíram valor ao tempo gasto, exigindo algo em troca do esforço. Um dos exemplos disso é o que ocorre quando as empresas pedem isenção de impostos para financiarem organizações não governamentais (ONGs) ou projetos de inclusão social, configurando o que Weber denomina como sendo “racionalidade prática”, que nada mais é do que as pessoas tomando decisões de acordo com o grau dos benefícios que podem adquirir. Exprimindo-se, nesse contexto, a existência da exclusiva e doentia empatia pelo dinheiro da sociedade hodierna.

Em anuência a isso, a negligência governamental no que diz respeito a divulgação e ao incentivo da prática voluntária no país, fez-se parte do revés quando, em oposição ao que defende Hobbes em “Leviatã”, deixou de propiciar meios que auxiliassem no progresso de toda a coletividade ao selecionar apenas uma parte dessa para ser o alvo de seus projetos. De maneira a ter como título de exemplo disso, o fato de o governo ter liberado mais de 200 bilhões de reais para crédito rural durante a pandemia, e apenas uma verba de 1,3 bilhão de reais para o financiamento das ONGs, segundo o G1. Assim, abrindo-se precedente para o cenário em que o gado — representante do lucro — é mais importante do que os cidadãos.

Destarte, visando seguir os preceitos de Hobbes através da exorcização da sociedade tida por Weber como possuída pelo espirito do capitalismo, o Ministério da Cidadania deve elaborar campanhas de incentivo à prática do voluntariado, destacando os benefícios não-materiais de gratificação pessoal, e promovendo, deste modo, por meio de uma política de desenvolvimento social, a valorização do trabalho voluntário no Brasil. Findando, portanto, a omissão estatal no que diz respeito à problemática e amenizando, também, a ganância da sociedade, tornando-a menos racional e mais solidária.