A desvalorização do trabalho voluntário no Brasil

Enviada em 27/10/2021

O filme argentino “Elefante branco”, retrata a história de dois padres que decidem trabalhar voluntariamente em uma comunidade de Buenos Aires. Nesse sentido, com a ajuda de outras pessoas, Juliam e Nícolas começam a agir em prol do mesmo objetivo: diminuir a miséria, o tráfico e a violência daquela região. Fora da ficção, no entanto, é fato que o cenário brasileiro hodierno se distancia da realidade do filme, uma vez que as ações humanitárias são cada vez mais desvalorizadas, seja pela manutenção de uma racionalidade individualista, seja pela falta de incentivo ao voluntariado nas escolas do país.

À vista disso, é imprescindível destacar que a mentalidade egocêntrica de parte da sociedade brasileira, justificada pelo sistema econômico-político vigente – o capitalismo -, impossibilita a ascensão de ações humanitárias. Sob essa ótica, os autores da primeira geração da Escola de Frankfurt, afirmavam haver, no capitalismo monopolista, uma inversão de valores no que se refere às relações sociais. Desse modo, as mudanças econômicas e políticas dos séculos XIX e XX, provocariam uma contraposição entre indivíduo e sociedade, em que o primeiro, a fim de suprir suas próprias vontades e interesses, se afastaria do segundo. Assim, é compreensível que, ainda nos dias de hoje, apenas 4,3% da população brasileira faça alguma atividade arbitrária não remunerada, segundo uma pesquisa do IBGE, visto que, na mentalidade individualista, ajudar o próximo não traz benefícios a si mesmo.

Por outro lado, é notório que a falta de incentivo ao trabalho voluntário, nas instituições de ensino brasileiras, colabora com a desvalorização dessa atividade. Nesse contexto, observa-se uma insuficiência de conteúdos relativos a ações solidárias desde os primeiros anos escolares. Isso ocorre, essencialmente, devido ao sistema de ensino brasileiro ser pautado na memorização teórica, em que não há uma preocupação na formação cidadã e no estímulo à prestação de serviços voluntários em prol do bem-estar coletivo. No entanto, com criação de novas disciplinas voltadas ao desenvolvimento do senso humanitário entre crianças e jovens, será possível, nos próximos anos, mudar a realidade apontada pelo IBGE, dado que a sociedade reproduz padrões sociais impostos ao longo das gerações, segundo a teoria do “Habitus”, do francês Pierre Bourdieu.

Portanto, a fim de promover a valorização do trabalho voluntário no Brasil, o Ministério da Educação deve acrescentar uma disciplina voltada para a realização dessas atividades na base escolar. Tal ação será concluída, em um segundo momento, nas escolas, por meio do desenvolvimento semestral de projetos humanitários escolhidos pelos estudantes, os quais receberão um certificado ao final de cada tarefa. Somente assim, a narrativa do filme argentino poderá ser mais presente no cenário brasileiro.