A exploração trabalhista na sociedade moderna

Enviada em 27/07/2020

Milton Santos, geógrafo brasileiro, foi um dos estudiosos que conseguiu enxergar o aumento das desigualdades sociais e o acirramento da competição entre os indivíduos como o produto de uma globalização perversa, que era propagada pela mídia apenas como algo positivo. Um prova dessa perversidade são atuais as condições de exploração do trabalho, no Brasil, presentes, principalmente, devido à manutenção de ranços históricos e também à propagação de discursos que romantizam atividades análogas à escravidão.

É lúcido, em uma primeira observação, entender que as injustas condições trabalhistas são frutos de uma dinâmica que, desde o período colonial, é concentradora de riquezas. Essa questão  foi abordada pela historiadora Lillia Schwarcz - para quem " a Proclamação da República, em 1889 fez surgir pela relação de dependência com a metrópole, não uma Nação, mas um Estado". Nessa lógica, mesmo 131 anos após o Brasil abandonar o sistema colonial, não se percebe a formação de novas relações, mas a manutenção de aspectos, como a concentração de recursos e oportunidades em grupos e regiões específicas, que submetem diversos brasileiros à situações degradantes de trabalho.

Cabe, ainda, analisar a produção de de discursos que legitimam, mesmo inconscientemente, trabalhos abusivos como um obstáculo na redução da exploração. Isso ocorre porque encarar trabalhadores em situações semelhantes à escravidão como um exemplo de superação e perseverança mascara a desumanidade presente em jornadas de trabalho superiores a 12 horas em troca de uma remuneração inferior ao salário mínimo, por exemplo. Dessa forma, tal como afirmou o filósofo Byung Chul-Han, a sociedade do desempenho induz o indivíduo a se culpar por viver em uma situação opressora, ao invés que exigir do Estado assistência para que todos possam trabalhar de forma digna.

Compreende-se, portanto, a urgência em superar esses desafios que acentuam a exploração trabalhista. Para tanto, urge que o Poder Executivo assuma uma postura semelhante ao Estado de bem-estar social, em que os investimentos são direcionados a setores que irão reduzir o desemprego no país, por meio da realização de obras públicas, incentivos fiscais a pequenos negócios e auxílio para trabalhadores informais, a fim de que possa haver uma distribuição dos recursos que são concentrados há mais de um século. Além disso, é mister que  Superministério da Justiça reduza a impassividade da população diante dessas condições exploratórias. Para isso, deve ser criado um portal “online”, em que a sociedade civil seja instruída acerca de situações que violem as normas da CLT e também convidadas a denunciá-las, com o fito de que essa conjuntura não seja mais romantizada, mas sim combatida por todo cidadão brasileiro. Assim, será possível caminhar para uma globalização mais justa.