A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 19/10/2020

No livro “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, o protagonista cria um projeto de lei que objetivava tornar o Tupi o idioma oficial do país, pois esse era verdadeiramente brasileiro e não é oriundo de outro lugar. Contudo, fora da ficção, são raros os movimentos de valorização e preservação do jeito de falar aborígene. Sob tal ótica, a extinção de línguas indígenas no Brasil é um grave problema, visto que é uma exclusão de elementos da cultura nativa e a sua origem está relacionada ao histórico de dominação europeia sobre o país e à ineficiência do Estado.

inicialmente, a imposição da cultura dos colonizadores deixou um legado de menosprezo das manifestações indígenas. Ao chegaram no Brasil, os portugueses iniciaram um projeto de catequese dos nativos, porquanto esses eram vistos como inferiores e precisavam abandonar as suas crenças para adotar a fé católica e a língua portuguesa. Diante disso, a perspectiva etnocêntrica de inferiorizar os ameríndios permanece até a contemporaneidade, haja vista o ensino de idiomas estrangeiros, como o inglês e espanhol, nos colégios e a escassez de conteúdos sobre a linguagem nativa, até mesmo para os índios, que, ao irem à escola, aprendem o português. Nesse sentido, a valorização histórica da cultura externa em detrimento da indígena favorece a extinção de suas expressões comunicativas.

Outrossim, o poder público não tem fornecido suficientemente os meios necessários para a preservação das falas autóctones. De acordo com o artigo 215 da Constituição Federal, é dever do Estado garantir a todos o acesso às fontes culturais nacionais e incentivar as suas diversas manifestações. Entretanto, o que se percebe na prática é a predominância do estímulo apenas ao idioma oficial do país devido à escassez de investimentos no mapeamento e registro das cerca de 270 línguas indígenas, conforme dados do Atlas das Línguas em Perigo, bem como a precaridade de professores capazes de ensinar o idioma próprio da tribo a uma criança. Dessa forma, a falta de recursos governamentais em estudos sobre os várias dialetos nativos prejudica na sua conservação.

É mister, portanto, tomar medidas que promovam a manutenção das diversas formas de comunicação dos povos autóctones, como prevê a “Constituição Cidadã” de 1988. Logo, cabe ao Poder Executivo Federal investir em estudos sobre as centenas de línguas indígenas em território brasileiro, por meio do apoio financeiro e logístico às universidades com pesquisadores e linguistas dispostos a documentar e montar ortografias, as quais serão ensinadas em escolas bilíngues próximas as aldeias. Ademais, cabe aos colégios de todo o país oferecerem aos alunos o ensino de idiomas aborígenes. Espera-se, assim, ajudar a manter o número de falantes desses dialetos, evitar a sua perda e promover a valorização das manifestações culturais nativas.