A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 18/09/2020

‘‘O último Tamoio’’, um óleo sobre tela pintado por Rodolfo Amoedo, em 1883, mostra um índio morto na praia, sendo segurado pelo Padre Anchieta. A arte retratada evidencia o genocídio, ocorrido desde o descobrimento do Brasil, dos nativos. Nesse sentido, é de suma importância analisar a questão da extinção de línguas indígenas, um produto da conjuntura supracitada. Desse modo, verifica-se, no tecido social, como ferramenta de tal processo, não só um sistema educacional deficitário, mas também a falta de efetivação das garantias constitucionais.

A princípio, o professor Paulo Freire dissertou sobre a pedagogia libertadora, uma alusão à educação crítica a serviço da transformação sociocultural. No entanto, ao perceber a desvalorização da figura do indígena que, nesse contexto, revela-se na extinção de línguas de tal povo, nota-se um corpo social distante da pedagogia de Freire. Nessa lógica, o índio não é visto como parte integrante da sociedade, seja pelo preconceito o qual é submetido, seja pela homogeneização cultural vivenciada na pós-modernidade que mitiga culturas. Desse modo, observa-se um sistema educacional deficitário, o qual não dialoga com as ideias freireanas e, portanto, não consegue formar cidadãos que valorizem, sobretudo, a necessidade de conservação das variadas línguas dos indígenas.

Outrossim, a Constituição Federal explicita que é dever do Estado proteger o Índio. No entanto, a realidade expõe uma contrariedade. Esse paradoxo expressa-se, na verdade, à medida que não há políticas públicas eficientes, com o fito de dirimir a extinção de línguas indígenas no Brasil e, consequentemente, conservar o patrimônio histórico e cultural transmitido pela fala de tais povos, por exemplo. Nessa perspectiva, os fatos expostos ecoam o Enigma da Modernidade, do filósofo Henrique de Lima, o qual explicita que, apesar de a sociedade ser avançada em suas razões teóricas, é, por sua vez, primitiva em suas razões éticas. À vista disso, a dissonância entre a Carta Magna e a narrativa factual precisa ser solucionada.

Logo, é fundamental que o Poder Executivo, por meio de debates com o Ministério da Educação, realize uma reforma educacional, a fim de formar indivíduos mais diligentes quanto à valorização do índio. Posto isto, tal ação deve focar, principalmente, na pedagogia libertadora de Freire. Ademais, é imprescindível que o Terceiro Setor, aliado à mídia, crie campanhas publicitárias- mediante depoimentos de cientistas sociais- que expliquem a importância de o Estado desenvolver ações que visem à preservação da cultura dos povos nativos, com o intuito de efetivar as garantias constitucionais. Dessa forma, resolver-se-ão os emblemas que fomentam a extinção de línguas indígenas e, por fim, atenuar-se-ão a prevalência, na modernidade, dos impactos do que foi pintado por Rodolfo Amoedo.