A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 19/09/2020

Policarpo Quaresma, personagem ultranacionalista de Lima Barreto, queria transformar o tupi em língua oficial do Brasil. Nesse contexto, cabe analisar o lado totalmente oposto da situação: a extinção de línguas indígenas no território brasileiro. Assim, a despeito do que pensava o personagem, o sentimento de superioridade cultural de muitas pessoas e a quebra de pertencimento de muitos índios acabam por desvalorizar a cultura nativa e a riqueza imaterial que ela representa ao país.

A princípio, é importante ressaltar que a visão etnocêntrica contribui decisivamente para que línguas indígenas desapareçam do vocabulário. Sob esse aspecto, o processo de apagamento de traços culturais nativos iniciados na época da colonização portuguesa ainda perdura. Como prova, segundo a Unesco, das 270 línguas aborígenes que ainda existem no país, 190 correm risco de ser extintas. Com efeito, tal dado confirma que ainda há um sentimento de superioridade que rejeita a cultura do outro e promove o chamado “darwinismo social”, conceito sociológico que explica a extinção de culturas por grupos detentores de maior poder. Depreende-se, então, que essa visão discriminatória iniciada no século XVI deve ser desconstruída para que a variedade linguística ainda existente seja preservada.

Somado a isso, convém apontar a ruptura na sensação de pertencimento de descendentes diretos de indígenas. Acerca disso, é conveniente relacionar a “Teoria do Habitus”, do sociólogo Pierre Bourdieu, a qual alega que padrões são impostos, naturalizados e depois reproduzidos na sociedade. Dessa forma, as novas gerações de nativos carregam influências da cultura dominante e não se preocupam em valorizar tradições e saberes antigos, nos quais se incluem os idiomas. Por conseguinte, os falantes vão envelhecendo e as línguas indígenas ficando cada vez mais ameaçadas. Logo, é basilar o papel das escolas nessa conjuntura para que a autoestima e o orgulho sejam resgatados e as culturas autóctones sejam valorizadas pelos novos indivíduos das aldeias.

Fica claro, portanto, que as línguas nativas estão sob ameaça e devem ser protegidas. Por conta disso, o Ministério da Educação deve criar um projeto que preserve os diversos idiomas. Isso pode ser feito por meio de dinâmicas em aulas de sociologia, nas quais os alunos aprenderão saberes indígenas e a importância que eles têm para o patrimônio imaterial brasileiro, a fim de desconstruir comportamentos de superioridade. Além disso, outra via do mesmo projeto atuará mediante a realização de semanas temáticas desenvolvidas em escolas das aldeias, nas quais as novas gerações serão estimuladas a admirar os conhecimentos de suas etnias, com vistas a fortalecer vínculos e a ajudar a perpetuar a riqueza de seus povos. Dessa maneira, o sentimento de orgulho nacional presente em Policarpo Quaresma também existirá nos brasileiros e as línguas nativas serão valorizadas.