A extinção de línguas indígenas no Brasil
Enviada em 25/09/2020
Ulysses Guimarães, ao discursar sobre a Constituição de 1988, chamou-a de “cidadã” devido à visibilidade dada aos direitos dos cidadãos brasileiros. Nesse sentido, prevê-se que o Estado deve garantir a preservação das línguas indígenas, enquanto direito fundamental para o bem-estar da população autóctone. Entretanto, tal conjuntura fica restrita à lei maior, pois a não valorização do idioma indígena e a existência de dominação cultural, alicerçam um acentuado problema social: a extinção de dialetos nativos. Em face disso, são necessárias medidas que atenuem a problemática.
A princípio, verifica-se a importância de reconhecer as línguas indígenas como uma forma de expressão cultural. Nesse contexto, no filme norte-americano “A chegada”, alienígenas, por meio do ensino do dialeto extraterrestre, demonstram que o conhecimento sobre outras línguas permite desenvolver novas formas de pensar. Fora da ficção, é fato que a expressão cultural se dá por intermédio da língua, evidenciando os costumes, as relações interpessoais e a conexão com o meio, visto que estabelece correlação entre conceitos cotidianos e um povo específico. Logo, não valorizar as línguas indígenas, extingue não só os idiomas, como também extermina culturas e maneiras de pensar e agir.
Outrossim, é relevante ressaltar a vigente dominação de uma cultura sobre outra. Sob tal ótica, segundo o filósofo Pierre Bourdieu, as escolas funcionam como espaço de reprodução das desigualdades sociais, uma vez que a instituição escolar representa a ideologia de um grupo social. Nesse viés, a ausência de ensino de línguas indígenas em centros de formação de pensamento, representa a projeção de uma parcela social sobre outra, o que implica no “apagamento cultural” de um povo. Desse modo, as consequências da homogeneização do saber ficam evidentes nos dados das Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) que revelam que 90% das línguas indígenas foram extintas e, por conseguinte, nota-se há subjugação de povos nativos.
Dessa forma, estratégias devem ser aplicadas para mitigar os entraves relacionados a extinção de línguas indígenas. Cabe, portanto, ao Ministério da Educação, instância máxima da administração dos aspectos educacionais do país, por meio de parcerias com líderes de tribos indígenas, ministrar palestras em escolas sobre o modo de vida indígena e sua relação direta com a língua nativa, dando protagonismo às diversas culturas dos primeiros brasileiros, para que haja a valorização das raízes tupiniquins e o incentivo ao aprendizado de idiomas que simbolizam a identidade heterogênea do país. Assim, a Constituição “cidadã” será seguida na prática e os direitos previstos garantidos.