A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 27/09/2020

A música ‘’um índio’’ do cantor brasileiro Caetano Veloso, que exalta a figura do nativo, ao mesmo tempo em que denuncia o descaso com esse tipo de comunidade, fator exemplificado pelo trecho: ‘’depois de exterminada a última nação indígena’’, é um cânone que chama atenção, em poucos versos, para a realidade social dos índios no Brasil. Sob essa ótica, no que tange ao processo de extinção de línguas e dialetos de sociedades indígenas brasileiras, é preciso apontar a questão social e o desamparo do poder público como principais entraves para sua eversão definitiva.

A priori, o quesito cultural é fator essencial na preservação da identidade linguística de um povo. Nesse sentido, assim como ilustrado pelo livro do inglês Aldous Huxley, ‘’Admirável mundo novo’’, as comunidades indígenas podem ser severamente desprezadas por sociedades que se autodenominam civilizadas, simplesmente por não participarem de seus modelos e tradições. Efetivamente, em uma comparação com a vida real, tal como o autor quisera demonstrar, isso contribui para o enfraquecimento de características tipicamente culturais de um povo, porque suprime a manifestação de fatores culturais essenciais como os costumes e, sobretudo, a língua.

Em uma análise semelhante, existe negligência do Estado no amparo à questão indígena. Nessa lógica, na Turquia e em outros países do Oriente Médio, a população curda é estritamente oprimida quanto à manifestação cultural: são proibidos livros na língua curda e seu ensino em escolas. De maneira análoga, apesar de não punir a expressão de identidade dos indígenas, o Brasil não oferece um amparo satisfatório para a manutenção das tradições e dos dialetos indígenas em meio social, porque não se preocupa em estender o alcance cultural indígena. A esse respeito, o país precisa aderir ao ensino de línguas indígenas de um modo mais amplo que apenas em comunidades locais, como acontece, fator confirmado pelo mapa das escolas indígenas do Instituto Nacional de Estudos Anísio Teixeira (INEP), para permitir sua sobrevivência e articulação no espectro socionormativo.

Desse modo, é clara a importância da cultura na manutenção das línguas indígenas no Brasil. Portanto, cabe ao Ministério da Educação (MEC), a partir da inserção do estudo de dialetos indígenas como parte da grade escolar dos brasileiros, incentivar a preservação da expressão dessas línguas, não apenas em meio social (no convívio em sala de aula e fora dela), mas no meio acadêmico (pelo incentivo do uso das variantes nesse âmbito) dos brasileiros. Assim, a medida tratará de amparar tanto os estudantes indígenas, como permitirá a sobrevivência dessas línguas dentro do país.