A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 09/10/2020

No livro 1984, uma distopia é apresentada, na qual o governo edita continuamente o vocabulário da população, extinguindo palavras para limitar a liberdade de expressão e a criticidade dela. Apesar de não existirem mecanismos ditatoriais como esses no Brasil, é possível verificar que a língua indígena passa por uma mortificação que possui efeitos semelhantes aos vistos na obra de George Orwell. Dessa maneira, vale destacar as raízes históricas dessa péssima situação sociocultural brasileira, bem como a insuficiente ação estatal sobre o problema.

Primeiramente, observa-se que a extinção da expressão linguística indígena possui causas históricas. Quanto a esse ponto, é importante recordar-se da atuação do Marquês de Pombal em relação aos índios. Com as terras brasileiras em seu comando, ele expulsou os jesuítas do país e assumiu as políticas ligadas aos cuidados com o povo nativo, estimulando a miscigenação deste com outros grupos sociais e obrigando-o a usar o português como único idioma. Verifica-se, assim, que esse é um dos fatos históricos que potencializaram a exclusão gradativa do vocabulário dos nativos no país, uma vez que não só enfraqueceu os laços de parentesco pelos quais as línguas eram repassadas, mas também tornou-as reprováveis para o uso público.

Consequentemente, observa-se uma redução do poder político dos nativos, o qual diminui em um contexto de insuficiente ação do Estado. Do mesmo modo que no livro 1984, extinguir progressivamente os idiomas indígenas reduz a capacidade que seus falantes possuem de opinarem e fazerem valer seus direitos, o que os colocam em uma situação de vulnerabilidade social e cultural. No entanto, mesmo com essa gravidade, o problema não é tratado com a devida seriedade pelo governo, já que - como dito pela linguista Marília Soares - não há uma educação eficiente sobre diversidade cultural no ensino básico do país. Portanto, obtém-se um quadro contextual no qual torna-se oneroso inserir o ensino sobre as línguas indígenas nas escolas para preservá-las.

Portanto, o Ministério da Educação, em parceria com o Ministério da Cidadania, deve agir estimulando o aprendizado dos idiomas nativos por meio de uma alteração na grade curricular comum das matérias do ensino fundamental, incluindo, especificamente, disciplinas voltadas ao ensino da pluralidade cultural brasileira e à instrução sobre como usar o vocabulário de línguas como o guarani. Valendo-se dessas medidas, será possível obter o efeito social ligado à uma amenização da extinção das línguas indígenas no Brasil.