A extinção de línguas indígenas no Brasil
Enviada em 15/10/2020
“Mas o Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão, quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão”. A música “Que país é este” da banda Legião urbana retrata, dentre outros problemas sociais, a questão dos índios, que, desde a colonização do Brasil, sofrem perdas de território, de representatividade e de cultura. No âmbito nacional, esse quadro é intensificado, principalmente, no que tange ao desaparecimento das línguas indígenas, que apesar de sua importância cultural, são menosprezadas pela sociedade.
Sob essa perspectiva, é pertinente reconhecer o valor da linguagem de um povo. Nesse sentido, cultura pode ser definida como o conjunto de costumes e tradições de uma população, sendo a língua, então, pertencente a esse conjunto. A própria Constituição Federal possui no mínimo dois artigos que tratam da proteção à cultura, como o artigo 215° - que garante o direito ao acesso e à manifestação da cultura- e o artigo 231°, exclusivo para assegurar a proteção cultural, especificamente, dos povos indígenas. Dessa forma, fica evidente na própria constituição a importância da língua indígena, haja vista sua imprescindibilidade para a cultura brasileira.
No entanto, a sociedade desvaloriza essa manifestação cultural. Nesse viés, os filósofos da Indústria Cultural afirmam a existência de uma cultura de massa, a qual visa, mediante a mídia, influenciar o consumismo na sociedade para se obter o lucro. Alinhado com esse pensamento, observa-se que, com o crescimento da potência americana, ocorreu uma supervalorização do estrangeiro e um abandono da cultura nativa, justamente por influência da indústria cultural. Assim, no atual sistema capitalista, a população brasileira é indiferente com a ameaça de extinção das 190 línguas indígenas - conforme aponta a Unesco-, pois encontra-se mais preocupada com os costumes americanos. Esse cenário resulta na perda de identidade, não só indígena mas também nacional.
Em suma, com essas constatações, são indispensáveis medidas para restaurar, ao máximo, a língua indígena no país. Portanto, visando reestabelecer o uso comunicativo dessas línguas, cabe às Universidades, em conjunto com o Instituto do Patrimônio Histórico Nacional - IPHAN, por meio do arquivamento de estudos dessa linguagem, preservar e oferecer disciplinas optativas de especialização na área, especialmente, para os estudantes dos cursos superiores de história. Além disso, o Ministério da Educação deve incentivar a valorização e o reconhecimento da cultura indígena no país, por meio de campanhas nas escolas -como a criação de uma “Semana dos povos nativos”- a fim de chamar a atenção das crianças para a importância do assunto. Somente assim, a cultura nacional será não perdida e as almas dos nossos índios não terão que ser leiloadas.