A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 22/10/2020

A população indígena no Brasil vem crescendo ao longo dos anos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apesar de haver cada vez menos falantes de suas línguas nativas. De maneira geral, o indivíduo mais experiente ensina o idioma ao aprendiz apenas na forma oral, assim como seus costumes, crenças e tradições, o que dificulta o processo de perpetuação de suas culturas, já que se uma geração não recebe os conhecimentos, não há como transmití-lo. Dessa mesma forma, o preconceito enfrentado pela população indígena também interfere na conservação de seus idiomas, pois promove um raciocínio errôneo de afastamento de suas línguas nativas para uma melhor inserção na língua portuguesa e na sociedade não indígena.

Em primeiro lugar, verifica-se que as línguas ágrafas são mais propensas ao desaparecimento se comparadas às línguas escritas, em razão da primeira ser subordinada à oralidade e à existência do fluxo de informações entre diferentes gerações. Ademais, a educadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Magda Becker Soares, frisa como a linguagem escrita serve como instrumento de inserção social e de luta por direitos, evidenciando como sua ausência, além de colocar em risco a continuidade de um idioma, pode causar danos à identidade do indivíduo e senso de pertencimento, provocando enfraquecimento na luta por direitos.

Por outro lado, a descriminação histórica sofrida pelas populações nativas brasileiras faz com que muitos indivíduos se afastem dos preceitos de sua cultura, sendo um deles a língua. Segundo Luciana Storto, professora do departamento de linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), muitos povos indígenas abandonam suas línguas acreditando ser a melhor forma de se tornar fluente na língua portuguesa e assim ter um maior adentramento na sociedade não indígena, o que evidencia o preconceito étnico como colaborador para a extinção dos idiomas nativos.

Portanto, cabe ao poder público a criação e ampliação dos projetos já existentes de estudo e formação de modalidades escritas de línguas indígenas ágrafas, por meio de tecnologia digital, como filmagem das pronunciações e disponibilidade dos materiais escritos e gravados em espaços virtuais. Também são necessárias políticas públicas de amplo alcance midiático que visem a diminuição da visão preconceituosa em relação aos povos nativos e valorização de suas contribuições culturais e históricas na sociedade nacional. Dessa forma, com o conhecimento à disposição em forma democrática e o enaltecimento e apreciação da importância das línguas e cultura indígenas, será possivel reverter o quadro de ameaça à esse patrimônio brasileiro.