A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 26/10/2020

A primeira geração do Romantismo Brasileiro, da qual José de Alencar é um dos principais expoentes, é marcada pela valorização da figura do índio, tido como herói nacional e pilar da identidade do país. Entretanto, fora da literatura, nota-se que a cultura indígena não recebe similar exaltação, à medida que as línguas desses povos são gradativamente extintas. Nesse contexto, há dois principais fatores que devem ser levados em consideração: o impacto da globalização no que tange à dominação de determinadas culturas sobre outras e a falta de debates em torno da memória dos índios.

Em primeiro plano, observa-se que o fenômeno da globalização, caracterizado pelo geógrafo Milton Santos como um processo excludente, pressupõe a valorização da cultura dos povos dominantes e detentores do poder tecnológico sobre aquelas consideradas marginalizadas, como a indígena. Nesse viés, percebe-se, por exemplo, que aparelhos eletrônicos de multinacionais, como notebooks e celulares, que são comercializados no país, não contam com a opção de idioma dos povos nativos, o que gera um processo de adaptação forçada dos autóctones com línguas com as quais, muitas vezes, eles são se identificam. Assim, esses povos se veem em um contexto de negação de sua memória.

Além disso, deve-se ater para o fato de que essa problemática é pouco discutida nas escolas, de modo que, segundo estudo da Universidade de Campinas (Unicamp), das 1.500 línguas faladas pelos aborígenes no processo de colonização, apenas 181 são observadas atualmente. Sob essa óptica, nota-se o impacto gradativo de práticas que vão desde o processo de catequização desempenhada pelos jesuítas, que forçavam os nativos a aprenderem a língua do colonizador e, assim, negar sua própria cultura, até a falta de um plano de ensino nas escolas que busque explanar a memória dos índios. Destarte, tal realidade tornou-se banalizada, traduzindo o conceito de “Banalidade do Mal”, da filósofa Hannah Arendt, o qual consiste em naturalizar ações danosas à sociedade.

Portanto, é mister que o Estado tome providências cabíveis para solucionar o problema. Dessa forma, cabe ao Ministério da Cultura pressionar órgãos regulamentadores para que estes exijam a comercialização de produtos no país com a opção de línguas dos nativos, bem como a tradução de sites, por meio do recrutamento de tradutores especialistas no assunto, com o fito de tornar o processo de globalização mais salutar. Por fim, o Ministério da Educação deve criar disciplinas nas escolas que abordem a memória indígena, como sua linguagem, mediante aulas conjuntas entre professores de história e literatura, os quais devem expor filmes e produções linguísticas relacionados ao tema, de modo a trazer para a realidade a valorização dessas culturas, expressa pelos poetas românticos.