A extinção de línguas indígenas no Brasil
Enviada em 27/10/2020
A obra pré-modernista “Triste fim de Policarpo Quaresma”, do escritor Lima Barreto, tem como enfoque o anseio do personagem principal em tornar o Brasil mais semelhante às suas origens, inclusive ao modificar o idioma nacional para o tupi-guarani. Fora da esfera literária, observa-se que a sociedade, em sua maioria, também desconhece a pluralidade linguística brasileira, fator preponderante para extinção dos idiomas menos popularizados como os dos povos autóctones, seja pelo preconceito social, seja pelo descaso governamental.
Em primeira análise, é válido pontuar como o corpo social é o agente transformador dos dialetos, tanto para inseri-los, como segregá-los. De fato, a linguagem é um dos micropoderes focaultianos- referentes ao filósofo francês Michel Foulcault- uma vez que pode ser usado como instrumento de hierarquização em diversas situações cotidianas, à guisa: divulgações em noticiários, panfletos dos órgãos governamentais e até mesmo no perímetro escolar, cenários que dificultam o entendimento e a comunicação entre as diversas etnias. Dessa forma, ao menosprezar os dialetos indígenas, os indivíduos tendem a exemplificar o conceito do filósofo Pierre Bourdieu denominado de “Violência Simbólica”, em que não ocorre o embate físico, mas uma segregação velada contra essa minoria tupiniquim ao extinguir seus idiomas.
Outrossim, o Estado é falho ao não exercer seu papel de unificar a sociedade. Prova disso é o próprio Hino Nacional, um dos grandes símbolos oficiais do Brasil, que em quase nada representa a diversidade linguística dos povos autóctones, entretanto primazia uma norma culta de cunho eurocêntrico, ainda na óptica de seu colonizador. Nesse viés, o País percorre caminhos contrários ao da construção de uma identidade nacional, que seria possível com a manutenção dos vastos acervos linguísticos dos nativos da nação, semelhante ao pensamento defendido por Policarpo Quaresma.
Destarte, é imperiosa a união das corporações sociais para evitar a definitiva extinção das linguagens indígenas. Portanto, compete ao Poder Público permitir uma maior flexibilidade na escrita das propagandas governamentais, a fim de tornar a linguagem mais acessível, por meio de postagens nas redes sociais oficiais do Estado que contemplem tanto a língua portuguesa, quanto os variados dialetos dos povos originais, para preservar essa língua. Ademais, as instituições de ensino devem despertar o corpo discente à contemplar a cultura indígena muito mais do que no “Dia do Índio”, é crucial elaborar feiras culturais semestrais com a participação dos pais, que explorem a autonomia e a criatividade dos alunos para escrever textos usando dialetos dos nativos, assim a sociedade passará a ressignificar suas atitudes preconceituosas.