A extinção de línguas indígenas no Brasil

Enviada em 13/11/2020

A célebre frase “no meio do caminho tinha uma pedra”, ressaltada no poema de Carlos Drummond de Andrade, retrata as intempéries que surgem na jornada do eu lírico, as quais, metaforizadas como pedras, dificultam o percurso da sua vida. Inobstante, é possível afirmar que a poesia de Drummond possui um caráter atemporal, permitindo, assim, sua expansão para o contexto atual. No meio do caminho da importância das línguas indígenas no Brasil, existem pedras. Diante dessa perspectiva, é preciso assumir a postura de um geólogo e analisar as medidas que precisam ser aplicadas para que as rochas, ora da insuficiência constitucional, ora dos hábitos culturais, sejam levadas ao intemperismo.

Efetivamente, muitas instituições sociais não se comprometem substancialmente com as línguas indígenas no Brasil, mesmo que esse seja um dever da sociedade brasileira. Nesse âmbito, José Saramago em sua obra “Ensaio sobre a cegueira”, caracteriza a despreocupação do Poder Público e da sociedade frente aos problemas sociais. Destarte, similarmente, as pessoas fecham os olhos para as causas e consequências da extinção das línguas indígenas brasileiras. Isso é intensificado devido à carência de políticas públicas que auxiliem o indivíduo sobre a importância das línguas indígenas nas culturas nacionais e conscientizando-o acerca da referente problemática.

Paralelo a isso, a incúria social vinculada ao deficit em investimento na promoção das línguas indígenas na grade escolar desde o ensino fundamental, fomenta a perpetuação do impasse, ainda que esse direito esteja respaldado na constituição de 1988. Além disso, de acordo com a UNESCO,  190 línguas indígenas serão extintas do Brasil, isso ocorre principalmente devido à desvalorização dos povos indígenas e do contato com outras culturas. Logo, nota-se que, no cenário contemporâneo a isenção da democratização das línguas indígenas se manifesta em mecanismo da exclusão dos povos indígenas.

Portanto, a transformação desse quadro se dá de forma clara: a Fundação nacional do índio em parceria com o Estado, ao seguir o “Imperativo categórico” de Kant -no qual assegura que o princípio da ética é agir de forma que essa prática seja universal- desenvolverem oficinas educativas nas escolas, de 45 minutos, que ensinem tanto as línguas quanto as culturas indígenas, com o auxílio de professores capacitados, indígenas e pais de alunos, a fim de que as figuras parentais interajam com os profissionais. Destarte, a mudança de mentalidade correrá nos lares, facilitando a criação de um costume com as culturas indígenas, e assim, democratizando-as. Dessa forma, o caminho tornar-se-á livre, pois, como disse a poetisa Cora Coralina “Com as pedras atiradas, construí minha obra”.