A extinção de línguas indígenas no Brasil
Enviada em 30/11/2020
Antes da chegada dos portugueses no Brasil, nem mesmo os índios se denominavam dessa forma, fato que ilustra a imposição cultural europeia à população nativa. Apesar dos massacres que culminaram no desaparecimento de diversas tribos indígenas, a herança resistente dos povos autóctones simboliza, na hodiernidade, a pluralidade brasileira e suas raízes. Dessa forma, diante das constantes lutas pelo reconhecimento de territórios e tradições aborígenes, há de se destacar a importância da manutenção da linguística de tais comunidades, além de identificar as causas de seu desaparecimento, pois, segundo a obra A Terra de Mil Povos, " para o guarani, a palavra é tudo".
Em primeiro lugar, de acordo com a referida obra, escrita por um indígena da região paulista, as diferentes línguas indígenas possuem papéis que ultrapassam a comunicação, e tangenciam a espiritualidade dos falantes, já que, para os guaranis, o conceito de divindade é apresentado como o " Primeiro Som". Outrossim, a tradição oral não engrandece somente a identidade e os costumes regionais, mas também apresentam importantes possibilidades de intercâmbio cultural com o restante da população, que poderia se beneficiar dos conhecimentos milenares sobre medicina, culinária e desenvolvimento sustentável.
Contudo, apesar da nomeação do ano de 2019, pela Organização das Nações Unidas, como “Ano Internacional das Línguas Indígenas”, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística aponta que apenas 274 dialetos aborígenes permanecem em uso, diante dos 1500 já catalogados em 500 anos de história. Essa infeliz realidade relaciona-se à banalização da perda dos territórios indígenas, que possuem valor simbólico para a permanência da cultura ancestral, e à característica da predominância oral de tais estruturas linguísticas, fato que dificulta a institucionalização formal em escolas e repartimentos públicos. Dessa forma, mediante ao imenso significado das línguas indígenas para a cultura em geral, há de se traçar estratégias para a reestruturação desse bem imaterial.
Diante dos pontos supracitados, com o intuito de facilitar a expansão das tradições orais nativas, cabe ao governo, junto à Fundação Nacional do Índio, promover a linguística escrita nas comunidades indígenas, de modo que a institucionalização dos termos antes só existentes por tradição oral, potencializem-se para uso legal, e viabilizem a aprendizagem em escolas. Tal ação deve contar com profissionais competentes, que trabalhem com o apoio da comunidade autóctone, para estabelecer a íntegra e fiel materialização da escrita. Ademais, o Estado deve estabelecer projetos nas instituições de ensino que objetivem difundir a cultura indígena brasileira, pois, somente a partir dessas ações, tornar-se-ia possível perpetuar a rica herança cultural do Brasil.